Olhos que nunca enganam

 

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Olhos que nunca enganam: a verdade que reconheço no silêncio

Há momentos na minha vida em que o silêncio fala mais alto do que qualquer explicação. Momentos em que uma pausa me atravessa mais do que uma conversa inteira. E, nessas horas, percebo como um simples olhar pode revelar verdades que nem sempre tenho coragem de dizer em voz alta. É por isso que acredito profundamente que existem olhos que nunca enganam... porque, mesmo quando tento proteger aquilo que sinto, os meus olhos acabam sempre por entregar a minha alma.

Ao longo do tempo, aprendi que observar não é o mesmo que ver. Ver é sentir. É permitir que a minha essência reconheça no outro aquilo que vibra escondido dentro de mim. Há pessoas que passam por mim como se fossem apenas mais um rosto, mais um instante. Mas há outras cujo olhar me toca de forma inexplicável, como se dissesse: “Eu sei. Eu entendo.” Quando isso acontece, sinto uma conexão silenciosa, quase sagrada, que dispensa palavras....

Os olhos são portais, e os meus não são exceção. Por eles entra a luz e saem verdades que, por vezes, nem eu sabia que carregava. Já vi os meus olhos brilharem de amor e escurecerem de medo. Já os senti endurecer quando quis parecer forte e suavizar quando a vulnerabilidade me venceu. Podem tentar esconder sentimentos, mas não conseguem ocultar algo mais profundo: a energia da minha verdade.

Quando olho alguém com atenção, sem medo e sem julgamentos, vejo mais do que a aparência. Vejo a luta silenciosa que aquela pessoa trava. Vejo o peso que ela tenta carregar sozinha. Vejo a esperança ténue que insiste em sobreviver. E, ao mesmo tempo, reconheço nela o mesmo desejo que habita em mim: ser visto, ser compreendido, ser aceite.

Talvez os olhos nunca enganem exatamente por isso...porque não se preocupam com convenções, máscaras ou defesas. Eles mostram aquilo que realmente está a acontecer cá dentro. Já tive dias em que um único olhar cheio de carinho me deu força para não desabar. Já recebi coragem num olhar firme que me trouxe de volta ao meu centro. Já me encontrei, mais do que uma vez, num olhar que me lembrava quem eu era antes de me esquecer. Já senti olhares... malignos!!! Daqueles em que concluo: - Não gostas de mim...sem problema! Afasta-te! Nem eu mais quero olhar bem fundo nesse desperdício!!! 

Também sinto a espiritualidade manifestar-se nos olhos. Não preciso de rituais elaborados para reconhecer isso. Basta olhar alguém verdadeiramente. Há pessoas cuja presença já me acalma, mas é nos olhos delas que encontro o verdadeiro repouso da minha alma. É ali que sinto o universo a falar comigo em silêncio...numa ligação que não se define, apenas se vive...e, isso eu sinto com os meus filhos... que me retornam ao meu EU! 

Os olhos dos outros, e os meus, também me ensinam sobre mim. São espelhos que devolvem partes que por vezes tento ignorar. Quando alguém me olha com ternura e eu desvio o olhar, percebo a minha dificuldade em receber amor. Quando me olham com admiração e eu não acredito, percebo o pouco que ainda vejo do meu próprio valor. E quando alguém me encara com autenticidade e isso me assusta, percebo que ainda há verdade dentro de mim à espera de espaço.

É talvez por isso que alguns encontros me marcam tão profundamente: através dos olhos do outro, encontro pedaços de mim que estavam adormecidos. Cada olhar torna-se num convite... como se de uma compreensão...se tratasse.. um sentimento que nos permite curar. E quando aceito esse convite, sinto a minha alma expandir-se, como se finalmente tivesse espaço para respirar.

No fundo, a espiritualidade para mim é isto: a capacidade de ver o invisível e sentir o que não se diz. Nada é mais invisível ou mais profundo do que aquilo que vive dentro de cada ser humano. Os olhos são apenas a porta. A alma, essa....é o que atravessa.... o que fica. 

Por isso, quando me cruzo com alguém e sinto que o olhar dessa pessoa me tocou mais do que deveria, já não fujo. Talvez seja apenas um encontro casual. Mas talvez seja um daqueles raros momentos guiados pela própria vida... em que duas almas se reconhecem no meio do barulho do mundo.

Porque quando os olhos falam, a minha alma responde...e, por isso, pessoas esquecidas no tempo...eu, as lembro...pela forma com que me olham...porque me marcaram de alguma forma.

E quando a minha alma responde, encontro sempre a verdade....

E a verdade, essa, nunca engana....

Há olhares que quero rever... ver...e, outros... que, temos pena.... Até fecho os meus para não mais os ver!!! 

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