O lugar onde escrevia vai acabar. O que escrevo, não.




 Mudei de "casa", de "livro"...

Mudei porque foi preciso.

O lugar onde este blog vivia vai deixar de existir.
E há coisas que, quando estão vivas, não aceitam simplesmente acabar assim.

Há fins que chegam por decisão alheia.
Não pedem licença, não respeitam o ritmo das coisas vividas.
Anunciam-se e pronto.
Como se tudo pudesse ser encerrado sem resto.

Mas quando algo termina, nem tudo morre com ele.

Ficam rastos.
Ficam palavras.
Ficam gestos repetidos em silêncio.
Fica a pergunta inevitável: o que vale a pena levar?

Nem tudo sobrevive aos fins... e isso também é justo.
Há coisas que precisam mesmo de acabar.
Há versões nossas que já não nos pertencem.

Mas há outras que recusam morrer.
Não por resistência, mas por sentido.
Porque ainda dizem algo.
Porque ainda respiram.

Este blog sempre viveu nesse intervalo: entre o que passa e o que fica.
Entre o que se escreve para libertar e o que se escreve para guardar.

Quando percebi que o espaço onde escrevia ia acabar, houve um instante de aceitação tranquila.
Como quando se reconhece o fim de um ciclo...
Mas logo depois surgiu outra coisa... não nostalgia, não apego... possibilidade.

A possibilidade de levar comigo o que importa e deixar o resto ir...

Talvez seja assim que fazemos com a vida.
Nem tudo segue connosco.
Nem tudo deve seguir.

Algumas palavras pertencem ao tempo em que foram escritas e ficam bem onde nasceram.
Outras pedem continuidade.
Pedem outro lugar, outra luz, outro silêncio.

Escrever sempre foi, para mim, uma forma de dar a volta.
Não para negar os fins, mas para os atravessar.

Dar a volta é aceitar que algo acaba sem permitir que isso nos apague.
É reconhecer a perda e ainda assim escolher continuar.

Este espaço sempre foi feito dessa matéria: sentimentos que não sabiam onde caber, vidas observadas de perto, momentos pequenos demais para serem ignorados.

Nada aqui foi escrito para durar para sempre.
Mas também nada foi escrito para desaparecer sem rasto.

Há textos que nasceram de dias felizes, outros de cansaço, outros ainda de uma atenção súbita a algo banal: uma rua reconhecida sem saber porquê, um filme visto com quem amo, uma música que reaparece quando é preciso, uma memória que regressa sem avisar.

Alguns textos são antigos.
Outros ainda estão a aprender a existir.
Todos pertencem ao mesmo fio.

Esta nova casa existe porque algo acabou.
Mas existe sobretudo porque nem tudo acabou.

Aqui continua o mesmo gesto: olhar com atenção, escrever sem pressa, aceitar que algumas coisas morrem para que outras possam continuar possíveis.

Para quem chega agora, este é um lugar sem promessas de frequência nem de respostas.
Há apenas honestidade.
E tempo.

Para quem vem de antes, esta mudança não apaga nada.
Foi feita para que o que existia pudesse continuar.

O lugar onde escrevia vai acabar.
O que escrevo, não.

Fico por aqui.
Escrevo devagar.... sou Eu. 
E continuo.

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