Um Natal sem máscaras, com memória, verdade e dignidade

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Este Natal não me apetece fingir.

Não me apetece alinhar em discursos fáceis, em palavras bonitas gastas pelo uso excessivo, nem em gestos ensaiados que duram apenas o tempo de uma fotografia.

Este Natal pede-me verdade.

E a verdade, muitas vezes, não vem embrulhada em papel brilhante.

 

Estou cansada de hipocrisia.

Cansada de pessoas más... não das que erram, porque errar é humano, mas das que escolhem conscientemente ferir, diminuir, manipular e depois se escondem atrás de normalidades socialmente aceites.

Cansa-me o desrespeito tratado como força.

A arrogância confundida com segurança.

A indiferença apresentada como maturidade.

Vivemos num tempo em que muitos já não têm sentido de missão. Tudo gira em torno do conforto pessoal, da vantagem imediata, do “eu primeiro” elevado a filosofia de vida. Pessoas que não sabem para que servem, nem para quem servem, e que ainda assim se apresentam como exemplos de sucesso.

Saudades dos que eram inteiros!!!!

Tenho saudades de alguns dos meus amigos....

Dos verdadeiros! 

Daqueles que não seguiam as regras mais estúpidas da sociedade, mas sim valores antigos, firmes e exigentes: honra, coragem, lealdade. Pessoas imperfeitas, mas inteiras. Pessoas que não se vendiam ao aplauso fácil nem desapareciam quando era preciso ficar.

Hoje, estes valores parecem quase subversivos.

Dizer a verdade incomoda mais do que mentir.

Ser leal é confundido com ingenuidade.

Ter coragem é confundido com barulho.

E no entanto, são estes valores que sustentam relações, comunidades e sociedades inteiras.

O lugar vazio à mesa

Há alguém que me falta sempre à mesa...

Os meus avós...O meu pai...

Pessoas de valores....

Valores que hoje em dia muitos gaiatos nem sabem quais são... não porque sejam mais evoluídos, mas porque nunca tiveram de os aprender. Cresceram num mundo onde tudo é descartável: pessoas, promessas, princípios, palavras.

Eles não faziam discursos....

Viviam os valores.

Na forma como tratavam os outros.

Na forma como assumiam responsabilidades.

Na forma como faziam o que estava certo sem precisar de reconhecimento.

Com eles aprendi que honra não é orgulho, é coerência.

Que coragem não é gritar, é escolher.

Que lealdade não é conveniência, é permanência.

Talvez por isso este tempo me custe tanto.

Porque sei reconhecer quando falta caráter.

Porque distingo presença de pose, verdade de encenação, integridade de oportunismo.

Porque carrego comigo um padrão que não negocio... mesmo quando isso me isola.

Verdade, não razão

Não fico feliz por ter razão.

Nunca fiquei.

Fico feliz com a verdade.

Com a transparência.

Com pessoas que olham para o outro e reparam nele. Que escutam sem calcular vantagens. Que discordam sem tentar destruir. Que sabem que a dignidade não precisa de plateia.

O mundo move-se hoje com intenções pouco claras. Guerras travestidas de ideais, vinganças mascaradas de justiça, conflitos alimentados por egos feridos e interesses escondidos....

Nada disso acabará por imposição externa.

Só acabará quando perceberem que estão a cavar o próprio buraco... individual e coletivo.

Não há vitória possível construída sobre mentira, desprezo ou violência.

Cansaço não é vazio

Estou cansada.

Cansada de tudo isto.

Mas não estou vazia.

Levo comigo quem me ensinou valores. Trago à mesa, mesmo na ausência, quem me deu estrutura. Ainda acredito que o mundo não se salva com slogans, mas com caráter. Com escolhas feitas quando ninguém está a ver.

Aos meus. E aos outros.

Este Natal escrevo para os meus amigos e para a minha família.

Obrigada por ficarem.

Por me conhecerem inteira, com força e fragilidade, e ainda assim escolherem estar. Obrigada pela lealdade silenciosa, pela presença sem alarde, pelo amor que não precisa de palco. Vocês são casa.

Escrevo também para quem não gosta de mim....

Para quem me julgou mal.

Para quem tentou ferir ou diminuir.

Não guardo ódio.

O ódio pesa demais e corrói quem o carrega.

Guardo apenas a tranquilidade de quem sabe que agiu com consciência limpa e intenções claras. Não me arrependo de ter sido firme. Nem de ter dito “não” quando era mais fácil calar. Nem de ter saído de onde não havia respeito...

Não desejo mal a ninguém.

Desejo lucidez.

O meu Natal

Este Natal não é leve.

Nem pretende ser.

É um Natal com memória, com ausência e com consciência.

Com pessoas que ficam e com outras que seguiram caminhos diferentes... e está tudo certo assim.

Levo comigo quem me ensinou valores e quem me ensinou limites.

Não carrego rancor, não alimento guerras, não entro em jogos.

Escolhi a verdade. Sempre.

Continuo a acreditar que caráter vale mais do que conveniência.

Que dignidade não se negocia.

E que a paz interior só existe quando somos fiéis a quem somos.

Aos meus, sabem onde estou.

Aos outros, desejo lucidez.

Da minha parte, sigo em frente.

Firme.

Inteira.

Sem máscaras.

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