A Frieza que nasceu da verdade!

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Passem os anos que passem, desde esse dia, há algo que não regressou a mim.
Não foi a alegria. Não foi a capacidade de amar.
Foi a ingenuidade com que eu acreditava que a vida era justa apenas por ser vivida com bondade.
Nesse dia aprendi, da forma mais dura, que a vida não negocia.
Ela acontece.
E quando decide levar alguém, não pergunta quem somos, o quanto amamos, ou o quanto estamos dispostos a lutar.
Eu lutei.
Lutei com as mãos, com o corpo, com a respiração presa no peito.
Lutei com o pouco que sabia, com o muito que sentia, e com uma esperança quase desesperada de que ainda fosse possível mudar o desfecho.
Mas naquele momento eu não era técnica, nem aluna, nem razão.
Era neta.
Era amor em pânico.
Era alguém a tentar impedir o irreversível.
Perdi-a.
E essa perda não foi silenciosa.
Foi violenta.
Foi consciente.
Foi vivida segundo a segundo.
A partir daí, a dor deixou de ser apenas ausência.
Passou a ser memória.
E há memórias que não se acomodam... transformam-nos.
Sou mais fria com a vida.
Não por desprezo, mas por lucidez...
A frieza de que falo não é falta de sentimento.
É o contrário: é excesso.
É ter sentido demais num momento em que ninguém devia ter de sentir tanto.
Sou mais fria com quem banaliza a dor.
Com quem compara perdas como se fossem números.
Com quem fala de superação sem ter estado à beira de perder o chão enquanto tentava salvar alguém que amava...
Não perdoo quem não respeita a minha dor de perda...da forma como foi.
Não perdoo quem invalida aquilo que não viveu....
Porque há experiências que não admitem opinião externa.
Quem não sentiu o que eu senti não tem o direito de me dizer como eu devia ter reagido, superado ou seguido em frente...
A empatia não se improvisa.
Ou se tem… ou não se finge...
Essa vivência tornou-me mais contida.
Menos disponível para explicações!
Menos tolerante com superficialidade emocional.
Mas também me tornou mais justa!
Justa com a vida, como ela é: imprevisível, dura, indiferente à nossa vontade.
Justa comigo, porque sei até onde fui e sei que não me abandonei, mesmo quando tudo desmoronava.
A minha avó era a pessoa que me compreendia sem esforço.
Via-me inteira, mesmo nas partes que eu escondia de mim própria.
Sabia quem eu era antes de eu precisar de justificar.
Quando ela partiu, levou consigo uma versão de mim que só existia no olhar dela.
Isso muda uma mulher.
Muda a forma como ama.
Como confia.
Como se entrega.
Durante muito tempo, senti que o caos tinha ficado para sempre.
Até perceber que não estava completamente sozinha.
Houve alguém que ficou.
Alguém que não tentou corrigir a dor, nem minimizar o sofrimento.
Apenas esteve.
O meu avô.
Meu confidente.
Ele não precisava de frases feitas.
Não precisava de explicar a vida.
Conseguia, de uma forma silenciosa e firme, tornar o caos numa esperança possível.
Não uma esperança ingénua.
Mas aquela que nasce quando alguém nos segura sem nos pedir que sejamos fortes.
Com ele aprendi que a frieza também pode ser proteção.
Que o silêncio também pode ser cuidado.
E que continuar não significa esquecer.
Hoje sou uma mulher diferente.
Mais fria, dizem alguns.
Talvez.
Mas também mais consciente.
Mais fiel à verdade.
Mais exigente com os limites.
Não romantizo a dor.
Não faço dela bandeira.
Mas respeito-a... porque foi ela que me ensinou a ver a vida sem filtros.
E quem passou por algo assim não pede compreensão.
Pede respeito.
Porque algumas dores não passam.
Transformam.
E eu aprendi a viver com essa transformação sem pedir licença....

Ainda... hoje. 

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