As vozes da vida...

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Eu acredito que a vida fala connosco.

Não de forma óbvia, não em frases direitas. Fala através do que sinto. E quando aprendi a escutar, deixei de duvidar tanto.

Há coisas que me despertam. Momentos pequenos, quase invisíveis para os outros, mas que em mim fazem eco. Um olhar que chega na hora certa. Uma palavra simples que toca fundo. Um silêncio que, em vez de vazio, traz paz. São esses instantes que me fazem acreditar que nada é por acaso.

Acredito porque sinto. Porque há emoções que não vêm do pensamento, vêm de um lugar mais fundo. Vêm para me lembrar quem sou quando me perco, para me chamar de volta quando me afasto de mim. Há dores que me abriram os olhos. Há quedas que me ensinaram a confiar. E há reencontros... comigo, com os outros, com a vida... que me salvaram sem fazer barulho.

Nem tudo o que me desperta é leve. Às vezes é o cansaço. Às vezes é a tristeza. Às vezes é aquela inquietação que não me deixa ficar onde já não pertenço. Mas até isso tem sentido. Porque sempre que algo me incomoda profundamente, há ali um convite a mudar, a crescer, a alinhar.

Há sentimentos que não pedem permissão para existir.

Entram devagar, quase sem aviso, e quando dou por eles já me habitam. Não fazem barulho, mas mudam tudo. O olhar fica mais atento. O coração mais sensível. A alma mais desperta.

Há alguém... que despertou em mim uma forma diferente de sentir. Não foi um impacto imediato. Foi um reconhecimento. Como se algo em mim soubesse antes de mim. Como se a vida, mais uma vez, me falasse através do sentir.

O que sinto não é simples de explicar. Porque não nasce da necessidade, nem da carência. Nasce de um lugar limpo. Profundo. Um lugar onde não há pressa, nem posse, nem exigência. Há apenas presença. E verdade.

Sinto quando penso.

Sinto quando não penso.

Sinto quando o silêncio se prolonga e quando uma memória aparece sem ser chamada. Não é um sentimento que pesa... é um sentimento que acorda. Que me torna mais consciente, mais atenta, mais inteira.

Não sei exatamente o que a vida pretende com isto. E talvez não precise saber. Há coisas que não vêm para ser entendidas de imediato. Vêm para nos alinhar. Para nos lembrar da nossa capacidade de sentir profundamente sem nos perdermos.

Este sentimento ensinou-me muito. Ensinou-me que posso gostar sem invadir. Que posso querer bem sem prender. Que posso sentir intensamente e ainda assim respeitar o tempo, o espaço e o caminho do outro... mas sobretudo... o meu!

Há dias em que sinto gratidão pura. Gratidão por este encontro de almas, mesmo que silencioso. Gratidão por aquilo que foi despertado em mim: uma fé maior, uma sensibilidade mais afinada, uma confiança renovada na vida.

Porque há encontros que não precisam de acontecer em forma para acontecerem em essência.

Sinto que este sentimento me aproximou de mim. Fez-me olhar para dentro com mais honestidade. Questionar o que quero, o que mereço, o que já não aceito! Mostrou-me que amar... em qualquer forma ...começa sempre por um reencontro interior.

Nem sempre é fácil. Há momentos de saudade, mesmo sem ausência clara. Há momentos de dúvida. De silêncio pesado. De vontade de dizer... e escolha de calar. Mas até isso tem valor. Porque nem tudo o que é verdadeiro precisa de ser dito. Algumas verdades vivem melhor guardadas, protegidas, respeitadas.

A espiritualidade, para mim, vive muito aqui. Neste sentir que não pede garantias. Nesta ligação que não precisa de promessas. Nesta confiança de que, se é real, está entregue a algo maior do que a minha vontade.

Há noites em que peço apenas clareza.

Não respostas.

Clareza para continuar a agir com verdade, sem ferir, sem forçar, sem me trair.

Se este sentimento ficar, que fique leve.

Se partir, que leve consigo o que me ensinou.

Porque sei que nada disto foi em vão.

A vida tem uma forma bonita de nos tocar quando estamos preparados. Às vezes usa pessoas. Outras vezes usa sentimentos. Outras vezes usa ausências. Mas o objetivo é sempre o mesmo: acordar-nos.

Hoje acredito ainda mais nisso.

Acredito porque senti.

Porque algo em mim mudou.

Porque me tornei mais humana... mais atenta..., mais verdadeiro depois disto.

Não sei o que o futuro guarda. Mas sei que este sentimento... já deixou marca. Uma marca serena. Uma marca boa. Uma marca que não dói, mas transforma.

E se no fim eu não levar certezas, levo isto:

senti. E sentir mudou-me.

Não precisei de promessas, nem de finais felizes escritos à força. Bastou-me esta verdade silenciosa que cresceu dentro de mim. Bastou-me saber que o meu coração ainda reconhece, ainda acredita, ainda se abre... mesmo sabendo o risco que isso implica.

O que é real sente-se. O que é profundo não se explica. E o que é meu, guardo com respeito.

Se este sentimento foi passagem, foi sagrada.

Se foi espelho, mostrou-me quem sou.

Se foi semente, confio que a vida saberá quando...e SE... a fará florir.

Hoje caminho mais desperta... Mais inteira. Mais fiel a mim. E isso ninguém me tira. Porque a maior prova de fé não é acreditar no outro, nem no futuro... é continuar a acreditar em mim, mesmo depois de sentir tudo.

E enquanto a vida continuar a falar-me assim, por dentro, eu continuarei a ouvir.

Sem medo.

Sem pressa.

Com verdade.

Porque no fim, sou isto:

alguém que sente mais profundamente, alguém que acredita mesmo, e não se arrepende de amar... mesmo quando ama em silêncio.

Assim seja. 

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