Os devotos do passado e o teatro da dor!

Há pessoas que transformam o passado numa espécie de altar improvisado: acendem velinhas aos próprios ressentimentos, rezam a mágoas antigas e fazem procissões emocionais à volta das mesmas histórias de sempre. É poético, se pensarmos bem... poesia trágica, daquelas que não rima com evolução. E ainda assim, voltam sempre, com a arrogância discreta de quem acredita ser dono de uma verdade que só elas conseguem ver… talvez porque vivem tão inclinadas sobre o próprio umbigo que perderam visão periférica.
É fascinante... no mesmo sentido em que observar uma tempestade dentro de um copo de água pode ser considerado fascinante...ver estas pessoas reaparecerem com ar sábio, quase iluminado, como se a vida lhes tivesse dado uma revelação divina. A revelação é simples: precisam de atenção. Precisam tanto, mas tanto, que fazem malabarismos com emoções antigas só para garantir que alguém olha para elas. E se ninguém olha, empurram-se para o centro do palco, nem que tenham de tropeçar no próprio ego.
Vivem a mastigar problemas como quem mastiga eternamente um chiclete sem sabor...porque cuspir implicaria seguir em frente, e seguir em frente exige coragem que não têm. Preferem criar uma sinfonia de dramas reciclados, onde cada nota é uma queixa repetida, cada verso uma reinvenção conveniente do que realmente aconteceu.
E quanto mais se enterram nessa música desafinada, mais tentam convencer o mundo de que o concerto é sublime! Transformam erros em troféus, arrogância em autenticidade, vitimização em arte.
Para mim... um espetáculo degradante...É um espetáculo difícil de aplaudir...mas fácil de reconhecer: o teatro da insegurança é sempre barulhento.
Eu observo. Com distância. Com a serenidade de quem já percebeu que há almas que se alimentam do eco das próprias lamentações. Que confundem protagonismo com propósito, que fazem do drama um poema mal escrito e da carência uma filosofia existencial....
E ainda assim, há algo quase poético.... sarcasmo incluído... no facto de nunca conseguirem esconder aquilo que realmente são. Por mais que reinventem versões, por mais que maquilhem culpas, por mais que tentem brilhar: continuam presas no mesmo verso, na mesma métrica falhada, na mesma história que recitam sem perceber que já ninguém quer ouvir.
No fim, a vida não espera por quem fica parado a venerar mágoas antigas. A vida move-se...mesmo quando alguns insistem em ficar presos ao eco do próprio drama. E a verdade, aquela que não precisa de ser proclamada aos gritos, revela-se sempre: cresce quem tem coragem; repete-se quem tem medo....
E é nesse contraste que encontro paz. Porque enquanto uns vivem numa guerra silenciosa com o passado, eu escolho seguir em frente...
Escolho respirar leve, deixar ir o que pesa, e guardar apenas aquilo que me faz maior. Há despedidas que não doem... libertam!
E há afastamentos que não se perdem... salvam.
No fim, não é sobre quem faz mais barulho. É sobre quem encontra finalmente a quietude suficiente para ser verdadeiro consigo mesmo. E eu escolho essa quietude. Porque a minha paz vale mais do que qualquer palco emprestado a quem nunca soube amar a própria verdade.


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