Não é fraqueza. É coragem.

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Não é fraqueza parar.
Não é fraqueza sentir demais.
Não é fraqueza continuar a viver depois que alguém morre.

É coragem.

Vivemos num mundo que exige rapidez, resistência e respostas prontas.
Um mundo que se inquieta com a dor dos outros e que prefere a superação apressada ao luto vivido com verdade.

Mas há perdas que não passam.
Há ausências que se instalam.
Há pessoas que continuam a viver em nós de formas que o tempo não apaga.

Perdi pessoas que me fazem falta. Avós. Pai. Amigos.

Não os enumero por saudade… enumero porque continuam comigo.

Reconheço-os em cada ruga que o espelho devolve.
Em cada traço de personalidade que não escolhi, mas que me moldou.
Na forma como olho, como sinto, como permaneço.

Somos feitos de quem amámos.
E também de quem perdemos.

Quando alguém morre, não leva só o corpo.
Leva versões nossas que só existiam naquela relação.
E quem fica aprende, devagar, que seguir a vida não é esquecer.

É permitir que o amor continue sem a presença física que o sustentava.

Há uma coragem silenciosa em quem fica.

Naquele que acorda todos os dias e continua… não porque esteja bem, mas porque parar seria morrer também.

Há coragem em preparar o café para um, em abrir a janela, em sair de casa mesmo quando o coração pede abrigo.

Não é heroísmo.
É amor em estado de sobrevivência.

Se um dia eu morrer, não quero que parem o mundo por minha causa.

Não quero vidas suspensas nem corações aprisionados à minha ausência.

Queria que fossem para fora. Para a natureza. Para onde o tempo abranda.

Que apanhassem pedras do chão, simples, imperfeitas, reais… e as guardassem no bolso como quem guarda memórias sem explicação.

Que olhassem para as árvores… não à procura de respostas, mas de presença. Que as abraçassem. Porque há dores que só o corpo entende e só a terra consegue acalmar.

Assim me poderiam recordar.

Deixo que aquilo que sinto se propague. Não o guardo só para quem amo. Deixo que passe para os outros… mesmo aqueles que não gostam de mim.

Vá-se lá saber porquê. Talvez porque o amor não pede permissão. Talvez porque o mundo não precisa de mais razão, precisa de mais ternura.

Não escolho quem merece o bem que sinto. Escolho não interromper o fluxo.

O amor que recebi… e o amor que perdi… não me fechou. Antes pelo contrário… fez-me abrir portas ao Mundo!

A morte não mata o amor. O amor apenas muda de lugar.

Quem perde alguém que era casa aprende a morar dentro de si. Aprende a conversar em silêncio, a reconhecer sinais, a viver com uma presença invisível que já não responde, mas acompanha.

Há dias em que a falta pesa mais.Outros em que se respira melhor.

E isso não é incoerência.
É humanidade.

Rir depois de perder não é esquecer.
É honrar.

Não é fraqueza sentir saudade. Não é fraqueza parar no meio do dia porque o coração pediu. Não é fraqueza viver com mais cuidado, mais escuta, mais verdade.

É coragem não endurecer. É coragem continuar a amar num mundo que ensina a fechar.

O mundo precisa de amor. E aqueles que o deixaram connosco merecem ser recordados
pelo amor que somos capazes de retribuir.

Não em palavras grandiosas. Mas na forma como vivemos. Como tocamos. Como permanecemos humanos.

Se um dia eu partir, não me façam sombra pesada.

Façam de mim vento leve. Raiz. Presença discreta. Que me encontrem na terra molhada,
no barulho do rio, na natureza que não explica… acolhe. E quando a saudade apertar,
sentem-se com ela. A saudade também é oração. A vida segue, sim.
Mas segue diferente.

E seguir assim…não é fraqueza.

É coragem.

 

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