Quando o vento traz memórias

Hoje senti o vento e percebi que ele traz, junto com o ar fresco,
as pessoas que me habitam em silêncio.
Às vezes penso que esquecer é seguir em frente,
mas há presenças que ficam mesmo depois de partirem.
E talvez isso não seja tristeza, talvez seja apenas vida a continuar,
num outro ritmo, numa noutra forma.
Há dias em que sinto vontade de ser leve.
Não para fugir de nada,
mas para deixar o que pesa descansar um pouco.
Carrego tanta coisa dentro, lembranças, silêncios,
gestos que ficaram por dizer.
E, às vezes, tudo isso se transforma em vento.
O vento chega e traz rostos.
Gente que já não está, mas que ficou em mim de tantas formas.
Há pessoas que me fazem falta,
mesmo sem que eu saiba explicar porquê.
E há alguém em especial, alguém de presença tranquila,
de olhar fundo que, por alguma razão,
me faz falta também.
Não sei se é ele, ou o que desperta em mim.
Talvez seja a calma, ou a ternura, ou a sensação de paz
que o pensamento dele traz.
Há algo nessa ausência que não dói,
mas que insiste em permanecer, silenciosa,
como uma brisa que entra pela janela sem pedir licença.
Sinto falta de pessoas que partiram,
de outras que nunca ficaram,
e até de versões de mim que já não reconheço.
Mas há uma beleza tranquila nisso tudo:
na ausência que ensina,
na saudade que não sufoca, apenas respira devagar.
Hoje, deixo que o vento sopre o que for preciso.
Deixo-o entrar no cabelo, na pele, na alma.
Ele leva o que pesa e devolve apenas o essencial:
a paz de aceitar o que foi,
a força de continuar a sentir,
mesmo quando não entendo o porquê.
Talvez a leveza que procuro não esteja em mudar,
mas em permitir que tudo, até a saudade,
tenha o seu lugar em mim.


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