O lado amargo da bondade...








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Ser boa pessoa dá cabo de mim (mas ainda não me matou).
















Há dias em que ser boa pessoa me dói.
Não é uma dor física, é aquela dor funda, cansada, que se instala na alma. Uma espécie de erosão interior que vem de tanto engolir injustiças, de tanto calar o que revolta, de tanto tentar compreender o incompreensível.


Ser boa pessoa, hoje, parece quase um ato de resistência. Vivemos num mundo onde quem sente é chamado de fraco, quem cala é visto como cobarde e quem pensa é rotulado de arrogante. A pressa, o ruído e o ego transformaram a empatia em perda de tempo e a decência em excentricidade.


E mesmo assim, continuo a tentar.
Tento manter a calma, manter o respeito, manter o coração limpo. Mas a verdade é que há dias em que o mundo suja tudo o que toca. Há dias em que as pessoas más parecem estar por toda a parte, disfarçadas de normais, mascaradas de bondade.


As pessoas más não gritam. Sussurram.
Não atacam de frente!!! Insinuam, distorcem, manipulam. São educadas, calculistas, estrategicamente simpáticas. Sorriem, mas os olhos denunciam a falta de alma. Fazem o mal com um certo requinte, como se estivessem a praticar uma arte antiga.


E depois há os parvos.
Os parvos são o barulho do mundo. São os que falam alto e dizem nada. Os que se orgulham da própria ignorância e aplaudem a mediocridade dos seus pares. Os que opinam sobre tudo, sem saber coisa nenhuma, mas acham que o volume da voz lhes dá razão.


Durante muito tempo tentei argumentar, explicar, fazer ver.
Hoje, já não.
Aprendi que a estupidez não se convence, esgota. Que há conversas que não merecem resposta e pessoas que não merecem sequer o benefício da dúvida.


A minha forma de lidar com parvos é simples: silêncio.
Não é resignação, é autopreservação. O silêncio é o meu escudo e a distância, o meu refúgio. Não por fraqueza, mas por escolha. Porque percebi que cada explicação que damos a quem não quer entender é uma pequena traição à nossa própria paz.


Os sentimentos são o que me resta de humano.
E, ironicamente, o que mais me fere. São eles que me fazem continuar e, ao mesmo tempo, me desgastam. O amor, a compaixão, a empatia... tudo o que me torna boa pessoa é também o que me drena.


Há dias em que penso que seria mais fácil ser fria.
Mais leve, mais prática, mais imune.
Mas depois lembro-me: quem não sente, sobrevive, não vive.
E eu, mesmo cansada, ainda quero viver.


Ser boa pessoa não é ser submissa.
É ter coragem para continuar a sentir num mundo que já se anestesiou. É não permitir que o mal dos outros apague o bem que ainda existe em nós. É não confundir bondade com passividade, nem educação com medo.


A diferença entre uma boa pessoa e uma tola é simples:
a primeira perdoa, a segunda permite.
E eu já não permito.


Já não me dispo de mim para vestir o conforto dos outros.
Já não explico o óbvio.
Já não peço desculpa por sentir demais.


Ser boa pessoa dá cabo de mim, sim.
Mas ainda não me matou.
E enquanto eu sentir,  dói, mas salva.








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