Quase de regresso a mim...

 


Há tanto tempo que não via estrelas no céu.

Tanto tempo que quase me esqueci de como elas respiram silêncio sobre mim...

O inverno trouxe nuvens pesadas, dias cinzentos, noites fechadas. O céu parecia sempre ocupado demais para se abrir. E eu, que gosto de me perder a olhar para cima como quem se procura por dentro, fui-me esquecendo de esperar.

Hoje, finalmente, o céu deixou-me ver as estrelas...

E ali estavam. Quietas. Fiéis. Como se nunca tivessem saído.

Há qualquer coisa de profundamente curativo em voltar a ver estrelas. 

Talvez seja a consciência da escala...os meus problemas tornam-se pequenos, as minhas pressas parecem ridículas, as minhas inquietações perdem peso. 

Talvez seja a memória de menina, quando bastava deitar na relva e inventar desenhos no escuro. Ou talvez seja apenas isso: luz no meio da escuridão.

Senti paz.

Uma paz simples. Não eufórica. Uma paz mansa, quase tímida. Daquelas que chegam devagar e se sentam ao nosso lado sem fazer barulho.

Fiquei ali mais tempo do que previa. Sem telemóvel. Sem distrações. Só eu e aquele teto infinito salpicado de luz. E percebi o quanto tenho andado distante de mim. Não perdida... apenas ocupada demais, forte demais, responsável demais. Às vezes, no meio de tanto fazer, esquecemo-nos de ser.

Enquanto olhava o céu, senti qualquer coisa a alinhar cá dentro. Como se as estrelas também estivessem a acender pequenas luzes em mim. Pequenas recordações de quem eu sou quando não estou a tentar dar conta de tudo. Quando não preciso provar nada. Quando simplesmente existo.

Percebi que as estrelas nunca tinham deixado de brilhar. Eu é que deixei de as ver.

E talvez comigo seja igual.

Não me perdi. Apenas me encobri de nuvens. Cansaços. Silêncios acumulados. Emoções guardadas para depois.

Esta noite não foi um regresso inteiro.

Mas foi um começo.

E eu… quase de regresso a mim...

Relato... “A diamond in the wrong hands is just a stone.”



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