Quando a Mãe Natureza nos chama à humildade

 


Há dias em que me custa escrever.

Não por falta de palavras... mas porque há dores que pedem silêncio antes de pedirem opinião. Tenho pensado muito nestes dias. Tenho pensado nas casas alagadas, nos rostos cansados, nas mãos sujas de lama. Tenho pensado nas pessoas que foram retiradas das suas casas com o olhar de quem não sabe por onde recomeçar.

E tenho pensado, sobretudo, na forma como escolhemos reagir quando a vida nos testa.

Escrevo não para apontar dedos. Escrevo porque acredito que ainda somos capazes de ser maiores do que as circunstâncias.

Há qualquer coisa de profundamente doloroso em ver alguém sair da sua casa com os olhos molhados e as mãos vazias.

Não são apenas paredes que caem.

É chão emocional.

É memória.

É segurança.

As tempestades que atravessaram o nosso país deixaram um rasto de lama... mas também um rasto de humanidade.

No meio da destruição, há pessoas que não hesitam.

Bons exemplos... exaustos que continuam...

Voluntários que aparecem sem perguntar a quem pertence a casa.

Equipas municipais que trabalham noite dentro, mesmo sabendo que amanhã poderão ser criticadas.

Vizinhos que abrem portas e partilham o pouco que têm.

Há uma grandeza silenciosa nesses gestos.

E dói-me quando vejo que muitos dos que estão no terreno... a ajudar de forma genuína... são alvo de críticas fáceis, de julgamentos apressados, de insinuações injustas. Quem está com as botas na água fria e as mãos na lama raramente tem tempo para se defender. Está ocupado a salvar o que pode ser salvo.

Ajudar nunca devia ser cálculo.

Servir nunca devia ser estratégia.

Na minha forma de estar na vida, ajudar é instinto. É humanidade. Não penso no que isso me traz. Penso apenas no que pode aliviar. Sempre acreditei mais em arregaçar as mangas do que em levantar a voz. Mais em estar presente do que em aparecer.

Talvez por isso me faça tanta confusão o aproveitamento político da dor. Há momentos em que a única posição digna é ao lado. Não à frente. Ao lado. Em silêncio, se for preciso.

Mas há uma verdade ainda mais profunda que estas tempestades nos obrigam a encarar.

A natureza sempre teve razão.

Somos nós que insistimos em ocupar espaços que não nos pertencem. Construímos em leitos de cheia como se os rios fossem adereços decorativos. Impermeabilizamos a terra até ela deixar de respirar. Chamamos desenvolvimento ao que muitas vezes não passa de lucro imediato.

É uma arrogância antiga!!!!.... essa de achar que dominamos tudo!!!

Mas a natureza não é vingativa. É coerente...

Ela responde aos excessos com verdade....

Quando caminho junto a um rio, quando me perco num caminho onde as árvores parecem reconhecer-me, sinto sempre isto: a natureza não grita. Ensina. Ensina-nos que tudo tem um limite... Que tudo tem um equilíbrio. Que há forças que não se conquistam... respeitam-se!

Talvez o verdadeiro progresso não esteja em construir mais depressa. Talvez esteja em construir melhor. Com consciência. Com responsabilidade. Com humildade.

Que esta tempestade não seja apenas um episódio noticioso. Que seja consciência. Que nos obrigue a planear com visão, a decidir com ética, a pensar no longo prazo em vez do ganho imediato.

Porque no fim, quando a água baixa e o barulho passa, fica apenas aquilo que fomos capazes de ser uns para os outros...

Ficam as mãos estendidas.

Ficam os abraços dados na lama.

Fica o carácter.

E a pergunta é simples...mas exige coragem.. que poucos a conseguem ter!!!:

Que tipo de humanidade queremos ser?

Eu escolho acreditar que podemos ser maiores.

Maiores na solidariedade.

Maiores na humildade.

Maiores na responsabilidade.

Não é apenas a tempestade que nos testa. Somos nós que nos revelamos nela.

E quando a terra volta a respirar, talvez seja esse o momento de começarmos também nós a fazê-lo... com mais respeito, mais consciência e mais dignidade.

A Mãe Natureza... sempre nos ensinou... mas, nunca quisemos saber...

Alguns... idiotas...continuam..a não saber aprender. 

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