Mesmo pousada... sou asa...
Eu amo o som da natureza quando acorda com o sol.
Há uma verdade quase indomável naquele instante.
Os pássaros não hesitam. Cantam.
As folhas mexem-se como quem desperta devagar.
A luz entra sem pedir licença e tudo ganha direção.
O sol não faz barulho...mas o mundo inteiro responde.
Sempre me reconheci nesse despertar...
Na expansão....
Na claridade que não pede desculpa por existir...
Há em mim esse impulso de voo...essa necessidade de horizonte, essa fome de céu aberto.
Mas o inverno chega.
E este ano chegou diferente....bem mais cruel...
Não há companhia para me aquecer.
Não há um abraço onde descansar o frio...
Não há aquele silêncio partilhado que aquece mais do que qualquer lareira.
E há ausências.
Ausências que me doem...
Não são ausências dramáticas.
São ausências densas.
Daquelas que ocupam espaço nos fins de tarde demasiado longos, nas conversas que não acontecem,
nos gestos que ficam suspensos no ar.
Ausências que não gritam...
mas pesam.
E no meio delas,
descobri algo mais cru do que a própria solidão:
sinto-me como uma ave que sabe voar mas permanece pousada.
As asas estão intactas.
A força continua aqui.
O instinto pulsa.
Mas falta o vento certo.
Falta o céu partilhado.
Falta aquele olhar que diz “voa, eu estou aqui”.
Não é fraqueza.
Não é desistência.
É suspensão.
Sou movimento contido.
Sou voo adiado.
Sou canto que ecoa sem resposta.
E o inverno, curiosamente, não me revolta.
Até simpatizei com o recolhimento que ele traz.
Porque o inverno não distrai.
Não disfarça.
Não me permite fugir das ausências que me doem.
Ele obriga-me a senti-las.
Inteiras.
Sem abraço para me aquecer,
ouço a minha própria respiração.
Escuto os meus medos sem plateia.
Encaro a mulher que sou
quando ninguém me sustenta.
Se o sol me faz expandir,
o inverno faz-me aprofundar.
Se a luz me faz cantar alto,
o frio ensina-me a sustentar a nota sozinha.
Mas há uma linha ténue entre recolher e acomodar.
E é aí que mora o perigo.
Porque o mais difícil não é estar pousada...
é esquecer que nasci para voar.
E eu sei.
Mesmo com as ausências que me doem.
Mesmo quando o frio atravessa mais do que a pele.
Mesmo quando a solidão tenta convencer-me
de que este ramo é suficiente.
Eu sei.
Tenho asas.
Há céu.
E talvez este inverno não seja sobre perda...
Talvez seja sobre fortalecimento silencioso.
Sobre aprender que o calor mais difícil de cultivar
é o que nasce dentro.
Quando o sol voltar... porque volta...
o meu canto será diferente.
Mais consciente.
Mais inteiro.
Mas até lá,
que eu me lembre.
Todos os dias.
Que as ausências que me doem não me façam duvidar da minha natureza.
Que nasci para abrir as asas.
Que nasci para a luz.
Que nasci para o voo.



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