Nem Todas as Histórias Sabem Começar — Apenas Verdade
Nem todas as histórias sabem começar.
Algumas nascem com data, hora e cenário perfeito.
Outras começam no meio de uma frase.
Outras começam num olhar.
E há aquelas que começam em silêncio... tão silenciosamente que nem percebemos que já estamos dentro delas.
Sempre nos ensinaram que tudo tem um início claro. Um primeiro capítulo. Uma introdução organizada. Mas a vida raramente respeita essa estrutura.
Há histórias que começam numa palavra dita no momento certo.
Uma frase que empurra.
Que abre caminho.
Que nos faz atravessar medos que achávamos intransponíveis.
Essas palavras são asas.
Mas também há histórias que começam numa palavra que nos prende.
Uma crítica repetida.
Um rótulo que cola.
Uma frase dita sem cuidado e que fica a ecoar durante anos.
Essas palavras são âncoras.
E depois existem as histórias que não começam no que foi dito... mas no que foi percebido. Porque nem sempre ouvimos a intenção. Ouvimos o que somos naquele momento. Ouvimos com as nossas cicatrizes abertas ou com o nosso coração disponível.
Quantas histórias nasceram de um mal-entendido?
Quantas nasceram de uma esperança?
Quantas começaram numa interpretação que talvez nunca tenha sido a realidade... mas que foi sentida como verdade?
E há ainda as histórias que começam nas palavras camufladas.
Nas que ficaram por dizer.
No “fica” que nunca foi pedido.
No “gosto de ti” escondido atrás de orgulho.
No silêncio que dizia mais do que qualquer discurso.
Às vezes, a ausência de uma palavra é o verdadeiro ponto de partida.
Eu escrevo sobre tudo isso.
Sobre o que foi dito.
Sobre o que foi sentido.
Sobre o que ficou suspenso.
Escrevo mesmo quando não entendem.
Mesmo quando interpretam ao contrário.
Porque não escrevo para ser decifrada... escrevo para ser verdadeira.
E há dias em que a música me encontra antes das palavras.
Uma melodia certa e, de repente, fico disponível. Como se algo dentro de mim dissesse: “agora”.
A música tem esse poder estranho.
Organiza emoções dispersas.
Abre gavetas antigas.
Dá início a histórias que eu nem sabia como começar...
Há canções que são gatilhos de memória.
Outras são pontes para o futuro.
Outras são simplesmente espelhos.
E ao som delas, as palavras fluem.
Sem esforço.
Sem estrutura rígida.
Sem necessidade de explicação.
Mas também há histórias que permanecem sem início.
Sentidas, mas não escritas.
Vividas, mas sem primeira frase.
Há emoções tão densas que não aceitam introdução.
Há capítulos que começam no meio da dor.
Há amores que nunca tiveram um “era uma vez”.
E talvez esteja tudo certo nisso.
Nem todas as histórias precisam de saber como começaram.
Algumas apenas precisam de ser verdade.
Eu aceito isso.
Aceito que nem todos compreendam.
Aceito que nem todos sintam.
Mas quem é sensível… percebe.
Quem está ligado a mim… lê para além das frases.
Quem vibra na mesma frequência… encontra o início mesmo quando ele não está escrito.
Porque, no fundo, as histórias não começam quando colocamos a primeira palavra no papel.
Começam quando algo nos atravessa.
E isso… não precisa de introdução.



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