Entre o Sol e a Lua, Encontro-me

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Gosto de viajar... de conduzir! 

Gosto de fazer viagens longas e curtas, planeadas ou inesperadas. Gosto de conduzir, de sentir o carro como extensão do corpo, de deixar a estrada acontecer à minha frente. Não viajo apenas para chegar a um destino. Viajo para estar no caminho.

A música acompanha-me sempre. Às vezes escolho-a com cuidado, outras vezes deixo que seja ela a escolher-me a mim. Há canções que parecem nascer da paisagem, outras que a transformam. A estrada muda, a luz muda, e eu mudo com elas.

Gosto de ver paisagens. De as ver mudar devagar. Campos abertos, montes suaves, caminhos que parecem não levar a lado nenhum e, por isso mesmo, levam a tantos lugares. Viajar dá-me essa sensação de liberdade tranquila: a de não ter pressa.

Perco-me quase sempre quando uso o GPS!!! Já aceitei isso. Não é um erro. Não é distração. É uma forma de estar... no Mundo!!! O GPS diz-me para onde ir, mas raramente me diz onde estou... 

Quem me diz onde estou são as árvores.

Observo-as com atenção. Reconheço os lugares por elas. Pela forma como se alinham ao longo da estrada, pela sombra que projetam, pela memória silenciosa que carregam. Há árvores que me dizem: “já passaste aqui”. E quando isso acontece, sinto-me menos perdida.

As árvores não têm pressa. Estão ali antes de mim e continuarão depois. Ajudam-me a sentir o território, a perceber o lugar. Quando reconheço uma árvore, reconheço o caminho. E quando reconheço o caminho, reconheço-me.

Viajar, para mim, também é saber parar.

Parar quando algo chama por mim. Quando o olhar é puxado para fora do carro. Quando o tempo abranda por vontade própria...

Às vezes é uma ave.

Uma ave pousada num fio, numa árvore, num muro antigo... Pequena, silenciosa, mas cheia de presença!!! Cheia de liberdade... Observar uma ave é um exercício de humildade....Ela não tem pressa, não sabe para onde vou, não se importa com o meu destino. Está ali, inteira no momento... como se ela me pedisse... pára... olha-me.. repara em mim!!! Não consigo... Não parar... como se eu, lhe pedisse... asas... para voar!!! 

Parar para observar uma ave lembra-me que viajar não é apenas movimento. É atenção. É escuta. É disponibilidade.

Na ultima viagem que fiz, no caminho, aconteceu algo extraordinário...

No meio do nada.

De herdades e caminhos alentejanos.

Por onde tantas vezes andei!!

Ia a conduzir.

A ouvir música.

A olhar para as árvores que já conheço...a tentar absorver toda a energia...que preciso!!! Nesse momento, pensei numa pessoa.

Assim.

Sem razão aparente.

E, porra…(estava no Alentejo.. é a forma de dizer... Caneco! My God...na minha célebre expressão se sempre!!!) Mas disse.. porra. 

O telemóvel tocou.

Era essa pessoa.

Por um instante pensei: será um sonho?

Será coincidência?

Será o quê?

Fiquei suspensa entre o que sinto e o que é real. Depois desci à terra. Há outros assuntos a falar com essa pessoa. A vida continuou.

Mas aquele momento ficou.

Ficou como ficam as coisas que não se explicam. Como sinais discretos que não pedem interpretação, apenas respeito.

Muitas vezes gostaria que alguém me acompanhasse nestas viagens...acompanham-me estas pessoas que mesmo longe, tantas vezes penso nelas!!! E, as queria.. levar comigo...

Não para fotografar... como estamos já tão...vidrados nas redes sociais!!! 

Não para provar que estive ali...ou... estivemos...

Mas para ver.... ver o que eu vejo e reparo..nestas viagens.. aquilo que me enche a alma e me faz... sentir.. pequena. Sim, pequena.. pois o Mundo à minha volta é tão..mas tão.. fabuloso!!!

Sentir.

Estar.

Eu viajo assim... Em vez de fotografar, observo. Em vez de publicar, guardo. Sinto profundamente e levo comigo. Sei que alguém, um dia, irá adorar viajar comigo desta forma. A contemplar o que a natureza oferece. A saber parar. A saber ficar em silêncio.

Sigo a lua.

Sempre... Alias, se a vejo...nessas viagens ja não me sinto só!!!

E sigo o sol.

Tal como a lua, é um dos meus GPS.

Não como quem procura respostas rápidas, mas como quem confia.

O sol lembra-me o início, a clareza, o passo firme...

A lua lembra-me a pausa, a intuição, o que não precisa de ser visto para ser sentido.

Entre o sol e a lua encontro-me.

Não porque me indiquem um destino, mas porque me ajudam a alinhar.

Quando olho para o céu, sei onde estou.

E quando sei onde estou, não tenho medo de continuar...

Há dias em que sigo a luz.

Outros em que sigo o silêncio.

Ambos me levam ao mesmo lugar... a mim... e, a onde eu...quero e devo estar! 

Quando vejo o sol ou a lua, sei...sem precisar de explicar...que estou no bom caminho...

Entre o Sol e a Lua, Encontro-me.

Que mais viagens... me sinta acompanhada... por mim...por todos os que amo.. por tudo o que ninguém quer reparar...mas eu...vejo e sei. 

Contemplar... aquilo que muitos ignoram... só para quem é especial. Livre... e... voa... 

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