O tempo não cura nada

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***Texto Editado por Pi Sousa Pires


Não sei quem escreveu que «o tempo cura tudo!» Quando muito, não passará apenas de mais uma frase bonita que nos ajuda a pensar que vai ficar tudo bem… ou para nos ajudar a enfrentar um momento de aflição… e conseguir projetar um futuro mais… sonhador, se me permitem que o diga assim. Mas… o tempo não cura nada!
Com o passar do tempo… passamos a ter os sentimentos menos à flor da pele… sejam eles quais forem… e seja lá a cura que for!
O tempo não faz acontecer nada!… Não faz curar nada!… O tempo, simplesmente, obriga-nos a viver… — apenas isso!
O tempo… envelhece-nos… tira-nos algum do fulgor… devolve-nos apenas… aquela apatia de sermos tratados por quem nos rodeia… poder-nos-á até transportar para uma imagem através da qual nos tornamos novamente crianças e temos de confiar em quem trata de nós. E quantas e quantas vezes o tempo… nos pede para voltarmos a confiar dessa forma?
Mas… a triste verdade… a triste realidade é que o tempo não permite que nos esqueçamos das «merdas»… e das rugas e profundas cicatrizes!… Não, o tempo não permite essa cura. Quando muito, devolve-nos a paciência de confiar… até porque não há outra forma!… O tempo não consegue apagar a nossa essência… Por vezes, ainda tentamos ser uma outra coisa… diferente de nós próprios… — oh, quantas e quantas pessoas eu reparo que fazem isso?! E que triste é… tentarem sobrepor-se ao que são…
O tempo… não vai curar nada disso!… O que o tempo fará é encontrar explicações… e acabará por… demonstrar e evidenciar a verdade. Só isso, simplesmente!… — o tempo não cura… o tempo revela a verdade.
O que é que o tempo poderá curar? É o que não presta… aquilo que passou pela nossa vida… sem a importância que julgamos que tinha! Coisinhas… ah, isso o tempo apaga! Apaga… ou cura… ou tudo o que lhe quiserem chamar!
Com o tempo… os nossos olhos começam a precisar de cuidados… e de utilizar outras ferramentas para ver! No fundo, com o tempo… afinal… o que acontece é que começamos a ver melhor e não pior. Com a vista mais turva… conseguimos reparar naquelas cores… nas cores… que durante a nossa juventude não víamos! E porquê? Porque estávamos ofuscados pela luz e cheios de vivacidade… e o amanhã… ainda era uma coisa… demasiado longe!… Tão longe que nem sequer precisávamos de ver… Qualquer coisa… que o tempo haveria de curar! Então, porquê chatear-me? O tempo… iria ser capaz, pensávamos… nem que fosse dali a um dia ou a umas horas… ou até dali a um ano!… Queríamos lá saber, pensávamos lá que iria um dia chegar o tempo das… dores e das… terríveis cicatrizes!…
Com o tempo… isso sim, vamos reparando que essas dores e cicatrizes se refletem no espelho onde nos olhamos pela manhã… e é até então que começamos a ver… a reparar… a constatar que o tempo não nos curou… mas… marcou-nos!… O espelho reflete todas as nossas escolhas… sejam elas boas ou más… precisem elas ou não de cura… o tempo… esse… permitiu-nos continuar… mas a sua marca ficou… as suas profundas marcas ficaram!… A marca do tempo… e… aquela maior do que essa… a marca da dor que esse mesmo tempo não curou!…
Somos nós que fazemos questão de amar todas as feridas que provocaram todas as cicatrizes e rugas!… Mas também somos nós que iremos conseguir ultrapassar a dor… e a ferida. O tempo… vai apenas amansando a dor… e conseguindo apaziguar-nos o nosso coração…
Mas… chegará o dia em que… olhamos para nós… recordamos o nosso percurso… e tudo volta atrás… como que uma espada a cortar pedaços de nós. Vamos olhando devagarinho para nós… e, de repente, estamos a olhar para um rio que corre sobre a nossa face… e estamos a olhar para alguém que… o tempo não curou… mas, antes, desfez!…
E restarão apenas a experiência, a capacidade de resiliência, a certeza de que se viveu! Ah… Mas… o tempo não cura… esta mágoa incessante e constante… esta enorme mágoa de não me terem permitido Viver!… Viver e conjugar essas vontades… que a juventude nos proporciona… com o saber e a maturidade de hoje…
E, já agora… quero que saibam que eu fui muito amada. Mas… as feridas que me ofereceram… o tempo não cura… nem apaga…
Nunca pude ser o que sou. No espelho… ainda hoje vi isso. Já me colocaram em pedestais e… me atiraram também para lixeiras… — a vida é mesmo assim!…
Mas nunca ninguém tirou de mim… o que eu sou… O meu espelho hoje… explicou-me tudo isso.
O tempo não cura nada… Não somos nada… Por isso, não devemos ficar à espera de uma cura que o tempo nos pudesse proporcionar.
Resta-nos olhar… e reparar bem nas rugas e nas cicatrizes… e perceber a nossa alma… que felizmente ainda continua a correr com vontade para todo o lado… e brinca com pedrinhas… e guarda-as… e até as aconchega como se fossem pedacinhos de nós… que foram com o tempo caindo!…
Cada pedra e pedrinha que guardo… lembra-me que sou um nada que o tempo desfez e não curou… mas a força é tão grande… tão firme… tão dura… que até o tempo pode desistir de mim… não curar as minhas dores e as minhas feridas… que para mim… tanto me faz!… Restar-me-ão sempre… as minhas pedrinhas… e… eu própria… como pedra que permaneço…
Nunca souberam lidar comigo… nem o tempo ajudou… nem ajuda! Porque… a cada dia em que me levanto… surge mais uma desilusão agarrada à minha pele… surge mais uma ruga ou mais uma cicatriz… e é tudo isso que me faz lembrar que o tempo… não só não para como… pior ainda, não cura!…
Seremos só nós… esse antigo rebento que com o tempo envelhece… que se satura do sol e da chuva… e que a cada momento… tem de decidir… se será fruto viçoso… ou se cai ao chão e lá apodrece?!… Cabe a nós decidirmos se o tempo nos cura… ou se nos facilita alguns meios para encararmos o resto da vida… com os olhos com que nascemos… acreditando na vida e em todos os que nos rodeiam sem sequer termos forma de reagir… de nos proteger… ou de sentir o colo de quem nos vai magoar… atraiçoar e ferir!…
O tempo não curou nada em mim!… O que o tempo tentou foi moldar-me… para que eu pudesse e aprendesse a… reagir…
O espelho hoje… disse-me… que eu reagi.
O tempo não cura nada!… O que o tempo faz é dar-nos uma diferente perceção… da vida. De quem realmente formos… e somos quando a verdade da vida se reflete no espelho… e nos diz… nos faz ver… a nossa verdade de vida.
Continuo a ter o olhar de quem gosta de todos… sejam eles quem forem… bons ou maus… E continuo a acreditar na alma… no poder do amor… na essência de se ser generoso… bondoso… e sincero!…
Foi isso que vi hoje no espelho… Vi alguém que chora… E só isso já é um bom sinal!…
O poder do tempo… está nesses momentos em que enfrentamos o espelho e em vez de vermos apenas rugas e cicatrizes… vemos em primeiro plano uma alma… a alma que nasceu rodeada de quem obrigatoriamente deve confiar… e que não tem outra hipótese!
Assim é com o tempo… Quando envelhecemos… olhamos as cores… que não eram percetíveis… mas isso é o mesmo que acontece quando éramos bebés… e já não teremos reação! Já será difícil… falar das memórias… sejam elas boas ou más… Os «nossos velhos»… quantas vezes nos dizem coisas sem sentido… para nós… que fomos incapazes de ter visto seja o que for… são «loucuras da idade»… coitadinho ou coitadinha… O tempo marca. Se não passámos por ele… nunca o iremos compreender… É a vida que é guardada… e que vai permanecer numa alma… onde nunca estivemos! E é por isso que nunca chegamos a perceber!…
O tempo são as pessoas! A cura está nas pessoas… e não no tempo. As pessoas que na vida nos acompanham… deveriam saber de antemão… quem somos… o que sofremos… que feridas temos… e respeitar!… Não adulterar… nem a vida nem o tempo.
Se chegar a «velha»… quem sabe já meio tola… poderei dizer disparates… porque sou velha e já não digo coisa com coisa!… Pelo menos para os mais novos… para os que vão ficar, sem sequer terem sabido quem fui ou o que fiz… fiquem desde já a saber… tenham a certeza… de que o tempo não cura!… O que faz é revelar… delírios… doenças… E todas elas… fazem alguém falar!… Não faz qualquer sentido… é claro que não! É porque não viveram com os «velhos» todas essas memórias! E se elas existem… é porque o tempo as marcou… Com sentido ou não… o tempo marcou-as… mas não as curou!…
Se as pessoas fossem capazes de se olhar ao espelho… e, em vez de notar o que o tempo lhes fez… notassem… reparassem bem na alma… a vida seria bem melhor!…
Há maldades que o tempo não apaga… não trata, nem cura… Mas… o tempo pode atenuar… as feridas… — cabe apenas às pessoas saberem se elas marcaram ou não.
Olhei hoje para o meu espelho… e… numa primeira impressão… não me reconheci nele… Fui revendo todos os momentos de riso e de choro… momentos bons ou maus… — por vez choramos!… Porque nos vemos despidos e… encontramos pormenores que não existiam antes de o tempo nos marcar!…
Se… após os momentos de choro… por causa de um tempo que passou… olharmos com calma… com atenção… conseguiremos perceber a alma… essa mesma que nos curou de tudo aquilo que o tempo não foi capaz!…
E de novo… sentimos esse renascer que o tempo não permite… no corpo. Mas a alma, essa, regressa…
Toda a história está escrita em cada linha estranha que aparece no nosso rosto ou no nosso corpo… o tempo não cura as marcas que nos deixou… O tempo… o que faz é com que regressemos ao tempo de acreditar…
Os idosos… já foram crianças… E onde estão os outros que passam pela vida?
Quem consegue curar-se… são as próprias pessoas… e não o tempo… Esse… será sempre em demasia… ou demasiado pouco!…
Seja quem for que tenha passado algum tempo na vida… será sempre bom… quando… a sua alma se consegue transferir seja lá para onde for.
O que o tempo ensina… ou devia ensinar, é a respeitar…
Porque é que não vejo quase nenhum respeito no Mundo?
Porque é que só vejo jovens a achar que o amanhã existe, mas, na maior parte dos casos, apenas com ideais de confusão atrás de confusão e… quantas vezes, uma boa dose de ódio!…
Que Mundo é este?!… Amanhã… é o tempo que nunca esperaste que chegaria… mas que vai chegar… ou até já chegou!
Que tal… se revíssemos todos os valores coerentes com aquela alma que segue o caminho… à procura de uma paz… duradoura?
E que espelhos vos poderia oferecer? Ofereço-vos aquele que tenho. Aquele que vê a dor… que dá conta da transformação… mas que continua a ter esperança no Acreditar…
No acreditar que as pessoas podem curar… o tempo… podem menosprezar a dor ou então acentuá-la… pois cabe a cada um poder decidir que alma… pode ser.
O tempo não cura nada. Quem somos… somos…
As minhas esperanças… são as de um Mundo melhor e… mais capaz.
O tempo… apenas passa… Não cura nem desfaz…
Na vossa alma fica gravado… o bem e o mal… Mesmo que o tempo passe… o vosso espelho um dia… vai refletir… a vossa imagem…
Nesse momento… lembrem-se que esperaram… que pretenderam que o tempo curasse…
Mas não cura!…
Sejam aquela ALMINHA que nasce… que tem colo… bom ou mau… mas nasce.
Essa essência… essa alma… é a mais sincera!... E se, com o passar do tempo… conseguirem suportar tudo e todos… e olharem-se ao espelho… e chorarem tudo… e… mesmo sentindo que não perdoam o tempo… saberem-no perdoar… por isso mesmo! Porque uma alma nunca se apaga… O tempo, sim… esse vai passando e passaremos nós um dia a ser… novamente… aqueles seres pequenos… mas sem novidade do Mundo! E passaremos… mais tarde… com o passar do tempo… a ser feios e a ter rugas e cicatrizes…
E a sermos capazes de fazer birras bem piores do que aquelas que fazíamos antes!…
Mas seremos nós… os tais a quem o tempo não curou… e que apenas nos fez transformar… em alguém que… de novo precisa tanto, tanto de um colo…
Há coisas… que me magoam!… O tempo não cura!… O tempo é apenas tempo… E é importante que se sinta tempo para recuperar o que se foi… tal como os valores, os gestos, os sentimentos… e o amor… O amor ao Mundo e às almas… pesadas… doentes e sem cura… nem tempo… nem nada.
Tenham fé!… O tempo… será vosso aliado… sobretudo para quem nunca esqueceu… o berço onde nasceu.
E será então que a alma… que apenas estava escondida… voltará ao nosso encontro… porque o tempo nada curou!…
Olhem os meus olhos… olhem bem nos olhos de quem eu fui… e como o tempo passou por mim e não curou!…
Mas eu regresso… ao meu Eu… Sem tempo… Sem as pessoas que podem curar…
Como disse… o tempo é a verdade… Sim!… Mas não cura!…


 

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