Amar sem palavras

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***Texto Editado por Pi Sousa Pires


Este tema foi escolhido pelo meu filhote mais novo. Deliciei-me ao vê-lo explicar o Amor com palavras tão inocentes e, ao mesmo tempo,… tão verdadeiras.
E prendeu-me de tal forma a atenção ao ponto de eu… nem querer escrever! As palavras às vezes são poucas para conseguirem descrever o amor que sentimos! Como quase sempre acontece, quando quero relatar as palavras de alguém… preciso do meu espaço e do meu tempo… para conseguir digerir as minhas próprias palavras…
Pois… porque eu nem sempre reajo de imediato… perante as pessoas que amo. Isto porque considero que na minha juventude eu fui demasiadamente do género «coração na boca».
Para ser fiel a mim própria preciso de me concentrar naquilo que quero transcrever… neste caso acerca dos ensinamentos de uma criança.
Segundo as palavras do meu filho Manel… eu Amo sem palavras, porque tenho gestos para com eles, quer para os meus filhos quer para outras pessoas que podem perfeitamente testemunhar o amor que sinto. Às vezes, até lhes poderia dizer que não… Só que, muitas vezes… não consigo, porque há pessoas que me são suficientemente importantes. E, quantas e quantas vezes, embora seja eu própria quem precisa de ajuda… lá vou eu, sabe Deus como… ajudar.
É bom saber que um menino de nove anos… dá valor a isso! É bom saber que ele sente que eu estou triste, embora nunca me falte energia para os acompanhar… A paciência, mesmo quando se me esgota… é para o bem deles.
— Quando refilas comigo… eu sei que é porque queres que eu esteja mais atento. Não te preocupes, Mãe, eu entendo…
Os meus filhos nem sempre reagem… bem à quantidade de vezes que lhes faço discursos de vida!
Mas não há grande volta a dar: a vida é mesmo difícil… Temos de lutar todos os dias… todos os minutos… a toda a hora… para conseguirmos ter tudo aquilo de que necessitamos!
— Mas nunca vos faltou nada… apesar das dificuldades que por vezes a vossa Mãe passa…
Etc… etc… No fundo, tudo o que a minha Mãe me dizia e ainda diz… eu… retribuo em dobro aos meus filhos.
Tive a sorte de ter tido duas Mães… a minha Mãe… e a minha Avó… Há diferenças entre ambas… mas… a verdade de uma Mãe… querendo ser leoa, a proteger os seus filhotes… antes que qualquer coisa aconteça… sabe antecipar-se com uma palavra… É universal!…
Felizmente, os meus filhos… conseguem chegar lá… ainda mais depressa do que eu conseguia chegar… Eu… eu sempre fui uma fera rebelde… de nariz empinado, muito próprio… Eu tinha a perfeita noção do erro… mas… queria sempre ver o que o coração dizia!… Ouvia sempre as minhas mães… mas… havia também sempre algo que me desprendia… uma vontade enorme de querer mudar o Mundo… com as minhas supostas realidades… com o meu suposto ideal!…
E, por vezes, eu sei que as fiz sofrer. Ainda hoje a minha Mãe sofre um bocadinho comigo… E eu… vejo que sou parecida com a minha Mãe! Afinal… como Mãe… utilizo um mesmo discurso… só que… optei por uma atitude algo diferente.
Será por isso que os meus filhos… me enquadram nesse patamar de… Amar sem palavras? Talvez… Até porque há dias na minha vida… em que não lhes digo nada. Que não os sobrecarrego com discursos de Mãe preocupada… remetendo-me então simplesmente ao silêncio.
Há formas de lhes dar a entender… de lhes demonstrar que estão errados… que devem ter mais responsabilidade…
Eu vivi muito. E tive de saber lidar com o bom e com o mau. E cheguei a prejudicar-me… cheguei a deixar de ser o que sou para enaltecer outros que estavam no meu coração…
Os meus filhos… amam-me… sem palavras…
Se ouço o Manel dizer-me… «— Parece que estás triste, Mãe… O que foi?», não respondo… Ele faz tudo… sem precisar de lho pedir. O João… mais velho… mais calejado… sempre foi como a madrinha dele… Nada de grandes beijos nem abraços!… É espontâneo… tudo na hora certa… sem palavras… e ponto!…
E… agora… aquilo em que estive a… refletir acerca de outras explicações de uma criança de nove anos…
Foda-se… Nem eu amava assim tanto… porque não foram suficientemente bons para comigo para eu poder amar assim… Mas amei… ou até ainda amo… gente que nem merece… esse tal… amor sem palavras!
Fiz tanto e desse tanto o que resta… é nada… ou praticamente nada…
Noto que há uma certa vaidade nas pessoas que me impede de lhes dizer que um dia… ou houve um tempo em que… gostei… amei… ou que hoje gosto e… amo… Há sempre… uma certa inverdade em tudo!…
Não sou pessoa de amar… amar perdidamente… com ações e gestos inúteis… E… com palavras? Bem… eu poderia escrever as mais bonitas palavras de amor… mesmo se precisasse de me aconselhar com Luís Vaz de Camões… ou com Fernando Pessoa… ou com Florbela Espanca… ou com todos os que podem e sabem escrever acerca do amor. Oh… e como eu brilharia, sem dúvida… só que… tentando ser o que realmente não sou.
Essa é a verdade dos amores nos dias de hoje… É querermos apenas ouvir ou ler… algo que nos faça sentir bem!… Sentirmo-nos melhores com nós próprios… e… tudo o que seja maior do que somos… bora lá… vamos lá então apostar nesse amor que diz que é maior do que nós… Vamos lá brilhar com a nossa ligação… temporária de bem-querer…
Amar… de facto… não leva necessariamente a que sejam escritos belos livros. Não exige que haja uma ligação sexual absolutamente acima do normal… Não pretende ser um refúgio de solidão… Não obriga a que nos sujeitemos a uma realidade fácil… imediata… e sem grandes considerações!…
Amar nos dias de hoje… acaba por ser tão banal… que acho que nunca mais vou voltar a sentir Amor. Nem sei com que palavras vos posso justificar esta minha afirmação… mas, o grande problema é que… tudo se paga na vida! Até o Amor… Sim! Até o Amor, a dedicação, o companheirismo… tudo, tudo se paga. E tudo se apaga… se ou quando cometemos o erro de pretender ser o que não somos.
O meu Manel tem razão… Eu amo muitas pessoas! Mas nunca ou quase nunca lhes dedico as minhas palavras de amor…
Facilmente escrevo… com palavras… e, por isso… não as escrevendo… ou não as dizendo… poderão um dia perceber se senti ou não por elas… amor…
Tive na minha vida… várias situação dessas. E em todas elas provei com ações a minha dedicação… o meu amor… As palavras estiveram a mais… porque não fui capaz de separar o que sentia daquilo que me viria a fazer desmontar face a muitas «merdas»!…
Meus queridos filhos, meus familiares próximos, meus familiares afastados mas presentes (perante algumas histórias bizarras da vida) e meus Amigos… E amigos… conhecidos e… todos esses paspalhos que acham que me entendem: tenho uma mensagem para vocês todos… e o meu filho com nove anos conseguiu chegar lá…
Eu pertenço ao Mundo… e sei amar… o traste, o parvo… o pouco crente… e até o pretenso salvador do Mundo!… Sei amar… o certo e o errado… Sei amar… a vida… que me está destinada. Sei amar a chuva e o vento… da mesma forma que amo o sol… ou a lua… que me delicia… sempre… seja lá em que fase estiver! Sei amar… uma árvore, mesmo que toda torta… e que supostamente prejudica algo tão valioso como um castelo… Sei amar a cor das folhas mesmo depois de mortas…. Sei amar um «não» que me imponham… se por caso me acontece querer voar. Mas também sei amar aquilo de que me apontam quando eu possa ter dito um sonante… «não»!… E sei amar a esperança da verdade que tantas vezes teima em não chegar!…
Sei amar… quem é rotulado como o pior do Mundo… porque a vida… sabe fazê-lo… Sei amar, porque… percebo que ninguém possa ser um «anjo»… quando a vida o fez viver mentira atrás de mentira.
Sei amar…
Mas… também sei odiar… e com toda a minha força…
Ambas as situações depararão com o meu silêncio…
É que… dessa forma… não irão ser as minhas palavras a justificar seja lá o que for…
Não!… Há assuntos bem importantes que aconchegamos bem dentro de nós… tal como o Manel e o João tão bem fazem…
Percebemos… que sem palavras… o amor… chega até nós quando menos esperamos…
Porque a verdade… é como o Amor… Existe… É…
E assim será para a vida…
É!…


 

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