Saudades... Sim

Saudades... sim
*** Texto Editado por Pi Sousa Pires
Faço alguns quilómetros por dia, devido à minha atividade profissional. Paro constantemente na estrada… para observar as aves… Sim, porque eu tenho uma forte ligação às aves… algo que aprendi com o meu mestre Kiá. Um dia saberão a história… deste homem, sábio e sabedor… Sim, sabedor… daqueles pormenores que nunca percebemos!
Pois bem, as minhas saudades… levam-me sempre na direção dele. E ao que aprendi com ele… o saber reparar. Quando paro na estrada… saio do carro… e uso a máquina fotográfica… mas, mais frequentemente… um binóculo… ou, à falta dele, a minha própria visão. A visão de reparar nessa liberdade a medo… que tantas vezes observo na vida.
Eu tenho saudades… sim. Tantas saudades! Tenho saudades de quem me dava esse poder de ter liberdade a medo. De parar para reparar… De sentir… E de ter aquela força que pensávamos que não tínhamos.
Tenho saudade de ser eu… com o Kiá. De enfrentar todos os monstros e… de fazer prevalecer, acima de tudo,… a minha dignidade. Tenho saudades de lutar por mim. Por aquilo em que reparo… por aquilo que considero certo!
Tenho saudades… do rio… que corre, manso,… e do mar que braveja, feroz... De pintar um mundo com coragem… valentia e… decisão.
Tenho saudades… de rever certas pessoas… Aquelas que me viram, que me conheceram diferente… Aquelas que sorriam pelos meus bons modos… Aquelas que, tal como eu, apreciavam a sabedoria da vida… face à sabedoria estabelecida… mas… apenas e só teórica!
Tenho saudades… de quem apostou em mim. De quem um dia me tirou do sério! De quem um dia me fez… sentir o maior dos medos… e me levou ao meu limite. De quem sabia que eu estava a ir para além do meu limite. E que, quando eu consegui… me fez ver… que não importam os «porquês»! Ou os passados!... O que importou foi eu ter conseguido ultrapassar os meus limites… com tudo aquilo que eu… defini… sim… que eu defini como sendo importante.
Tantos me desprezaram! Eu fui a única!... A única a reparar… a notar… a ter espírito de autocrítica… a denunciar… a marcar… e a demarcar o meu próprio caminho!
E… fui… tratada como excelente! Quando, na verdade,… eu não passava de um mero 12… para tantos!
Um 12… em 20… só sendo muito perspicaz… espontânea… e, sobretudo, capaz.
Tenho saudades… sim. Tenho tantas saudades de quem se despediu de mim… mas deixando-me as portas escancaradas para eu poder entrar… se quisesse… quando quisesse!
Eu não era apenas… uma pessoa no Mundo… Era «a» pessoa. Pois,… mas a vida obrigou-me a fechar essas portas abertas… Eu própria as fechei… a cadeado! E tudo para fazer alguém feliz.
De certa forma… todas estas saudades… fazem-me hoje lembrar daquilo que me disseram um dia… e eu acreditei:
– Daqui a uns anos nem te vais lembrar… ou melhor… vais querer esquecer que tu própria é que escolheste viver a vida por quem não te merecia.
Pois… daí todas estas saudades! Quem não me merecia… afinal… era digno de me aceitar como um 12 em 20! É que eu… eu era um 20… para eles… Mas optei por quem me deu um falso… um hipócrita 20! E hoje… quem achava que não merecia o meu trabalho… a minha pessoa… fez-me… regressar àquele dia… ao dia em que virei costas ao que queria e… que tanto merecia.
Essas pessoas deram-me a maior força do Mundo! Por ter tido a coragem de começar de novo. Essas pessoas… acreditaram tanto em mim!
E… eu… fui o orgulho deles. Porque sabiam que eu era capaz… porque… esta mania de querer reparar e olhar… sempre me fez… perceber!
Poderia ter agarrado essa capacidade… poderia ter sido… aquela que ninguém menosprezava. Aquela que tinha tudo para dar… Aquela que apostava em quem poderia ser melhor do que ela própria!
Tenho saudades… sim. Quantas vezes me perco em memórias… e me reencontro nelas.
Quem de facto me deu o tal falso… o tal hipócrita 20… queria tudo menos eu. Não queria… nem admitia os meus sonhos… Eu tinha sempre de me encantar e de facilitar uma vida… que teimavam querer que fosse a minha! Tinha sempre de ser… melhor… e quando o fui… passei de 20 a 1. Impuseram-me tantas funções… E tiraram-mas todas.
Eu… sinto saudades… sim. Sinto tantas saudades daquele tempo… do tempo que não teria permitido o tempo que… é hoje.
Kiá faleceu em 2009!… E ficou a faltar-me esse voltar a mim… essa saudade enorme de voar a medo… mas de voar!
Saudades… sim! Tantas saudades! Mas hoje… voltei a ouvir… e nesse ouvir… olhei… Esqueçam! Reparei… interiorizei…
Não há nada como parar o carro… e sentir saudades… Sim! Tantas e tantas saudades!
E renascer… não quero nunca mais ser um 20… e muito menos para aqueles… que mo dão… e me menosprezam…
Serei então um mísero 12. Aguentem-se à bronca.
Saudades… sim…
Mas… o Rio… corre sempre para o Mar!


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