Recordações

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***Texto Editado por Pi Sousa Pires


A minha alma está marcada. Manchada. E, contudo… de uma certa forma… sou Feliz.
A minha vida tem sido um constante concretizar das minhas mais-valias. Eu valorizo o bom, logo, só quero concretizar o que for bom! Eu tenho um cuidado, uma preocupação muito especial em afastar-me das minhas más recordações.
Se bem que me afaste delas, que as não valorize,… é inegável que,… de uma certa forma, elas foram contribuindo para me moldaram naquilo que eu hoje sou. Tive de as aceitar,… mas sabendo que podia e devia renunciar a elas, afastá-las… esquecê-las… pelo menos o quanto isso me fosse sendo possível!
Elas, essas más recordações… demonstraram-me… que de nada serve recordá-las… que não importa desabafar com quem um dia oferecemos toda a nossa confiança e todo o nosso amor! É que essas pessoas não as iriam conseguir valorizar... na exata medida em como eu as valorizo. Pois… se essas pessoas não as viveram… não as podem interiorizar… não as podem sentir como eu as senti ou ainda as sinto… como na altura me magoaram… ou tão profundamente me feriram… e ainda ferem… às vezes… quando delas ainda me recordo…
Não tenho dúvida de que essas más recordações nos assombram para o resto da vida! E… quando, aos recordá-las… as associamos a essa gentinha que nos ouviu… mas que não nos escutou! Deus me livre… isso para mim… é sempre, mas sempre, o pior de tudo!
Já ninguém valoriza nada… quanto mais se se tratar do sofrimento alheio… da dor que alguém nos infligiu! Oh… isso é coisa de gente sentimental… de pessoas que nascem diferentes… Mas ainda existem pessoas assim… sensíveis… extremamente sensíveis! Mas… quem são? Aves-raras! Poucos as conhecem… realmente. Desculpem-me. É que eu vivi tanto os vossos problemas de merda! Senti-os… preocupei-me com eles… tudo isso me desassossegou e… não descansei enquanto não vos tentei ajudar…
Mas… tudo… tudo o que passei… acabou por me fazer calar, suportar… sem reagir. Porque… a minimização do que passei… era, afinal, tudo o que precisavam de mim. Que eu… sempre calasse,… suportasse… e não reagisse!
Mas saibam,… não se esqueçam que nunca vos faltei com isso!
São muito poucos aqueles que sabem da minha vida. Melhor dizendo… poucos sabem do que me aconteceu… e do que me acontece… talvez porque… só sabem o que eu quero que saibam! Talvez resida aí o meu erro. Eu… não desabafo…. Eu não conto tudo! Para quê relatar… pormenores? Esses estão intimamente gravados em mim… doem-me… doem-me tanto… magoam-me profundamente!
E eu… eu sempre fui a parva… aquela que se sentia triste… mas que via… que lia… a pessoa que, supostamente, se disponibilizava para me ouvir! Mas… eu… apenas dizia… despejava parte do que sentia. Que necessidade tinha eu de me fazer de vítima? Sim! Que necessidade tinha eu de fazer com que sentissem o que eu sentia? Para quê, afinal?... Qual a necessidade de me mostrar dessa forma, tão imensamente fragilizada, ao ponto de dizer…
«A minha vida a partir daqui nunca mais será a mesma!»
Daqui para a frente… serei… alguém que ficou profundamente marcada… mas… Nada!... Diante do espelho… só eu é que conseguia ver que o brilho do meu sorriso… já não era o mesmo!
Para quê? Por que raio deveria eu teria de falar? Por que raio é que eu haveria de querer ter um abraço… ou… uma simples palavra amiga?
As minhas recordações?...
Fui uma criança… uma jovem e… uma mulher… Sou uma mulher! Uma mulher que, apesar de tudo… sempre ofereceu a sua alma. Nas minhas recordações… vejo… claramente, toda esta minha enorme generosidade e paciência.
Muitos olharam e viram… primeiro uma criança… depois uma jovem… e mais tarde uma mulher… Mas ninguém reparou em mim… verdadeiramente. Porque ninguém teve a mínima noção… Porque ontem… hoje e amanhã…
Ninguém quer ter recordações… más. Há coisas que se apagam… há coisas que deixam de existir! Para vocês! Porque eu… oh… eu vejo… eu reparo… eu sinto.
Eu sou aquela que vos perdoa… porque, no fundo, eu nunca… nunca quis que soubessem das minhas más recordações… Talvez eu, talvez eu… é que tenha a culpa dessa imagem que acabaram por fazer de mim.
Acreditem: eu… nunca tive coragem para vos dizer… Foda-se!...
As minhas recordações, boas e más… a que me dediquei. Não, nunca me fiz de vítima. Suportei… fui sempre suportando aquilo de que gostava e do que não gostava…
Fui-vos sempre fiel… a todos vós… que também sofreram… mas, como alguém disse… «não calcem os meus sapatos!». Respeitem esta mulher de recordações. Pois eu… vivi…. E que escuridão… Suporto todo o negrume… e, ainda assim,… olho-vos diretamente… olhos nos olhos… e dou o que tenho… e até o que não tenho… até que vos consiga colocar um sorriso no rosto…
Recordações…
Se ainda há pessoas… e eu sei que as há… que sejam dignas desse nome e… um dia… me venham pedir perdão.
As boas recordações… deram-me asas… e, um belo dia,… voarei. Sim! Voarei no meu próprio voo… comigo própria.

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