Será possível... viver tudo aquilo a que ainda temos direito?

Parece que foi ontem… quando o futuro nos apresentava tantas oportunidades, nos apontava tantos caminhos!
Parece que foi ontem… quando agarrávamos qualquer oportunidade que se nos deparava, sem pensar nas suas possíveis consequências…
Parece que foi ontem… em que o futuro ainda estava tão distante… e… o nosso passado era aparentemente tão irrelevante! Vivíamos apenas o presente… sem imaginarmos e nem sequer nos preocuparmos com a história que iria ser escrita.
Será possível? Será possível… que, por entre todos esses tropeços e vitórias… não tenhamos aprendido nada? E, agora, será possível… olhar para trás… e tentar viver tudo aquilo a que ainda temos direito?
Não andaremos todos nós a fingir? A fingir… que ainda temos direito a viver um futuro? Com aquela capacidade inata dos jovens… com aquela coragem que teima em não nos largar! Mas… com a vida… fomos indo e indo… e aprisionando… o que somos… o que quisemos…
Tenho uma boa relação com o meu passado. Podendo, ou não, viver um futuro próximo ou longínquo… De nada me arrependo do que vivi… do que o meu coração me mandou… e, muito particularmente… de todas as atitudes e decisões que o coração dos outros me fez tomar e que eu… então tomei.
Não existem pessoas boas em lado nenhum. Para uns… o meu passado… é como o querem ver… para outros… não passará de uma história… ou de uma marca, boa ou má…
Há quem me alimente de esperança… e quem me tente destruir por, de facto, nunca me ter conhecido ou sabido lidar comigo… com este ser bom, ou mau… não interessa… mas que sou «eu».
Há quem chegue a chorar por mim… ou se preocupe comigo… mas, nunca, nunca… me pode pretender alterar seja o que for… acerca do que sou… ou criticar o que fiz… ou o que faço.
Há pessoas na minha vida… que chegam a dar a ideia de não saberem nada acerca de mim… – absolutamente nada.
Será possível?... Será possível eu viver o que, nesta minha idade – e analisando eu própria o meu percurso – acho que ainda tenho direito de viver?
A vida é uma doce benesse… que todos achamos que devemos ter. Mas, o que é que eu vejo dia-a-dia? Uma série de gente… com todas as suas mesquinhices… com um aparente dom da palavra… com vontade de projetar um mundo perfeito… mas, sem sequer dar um passo nesse sentido!
Reconheço que tenho uma coisa má em mim! Olho à minha volta… e consigo reparar… notar… que… «ontem»… apercebi-me… do enorme orgulho que tenho na pessoa que sou…
Nunca na minha vida… rejeitei seja quem fosse… Há pessoas que não merecem isso… – também eu própria aprendi.
Muitos sabem que luto pelo meu direito a ser feliz. Muitos… me apoiam precisamente por isso… Mas muitos… me condenam por isso… e… há aqueles… alguns… que dizem que me amam… que se preocupam comigo… e que, não me conhecendo… têm atitudes… ou então não as têm… que me afastam. Que me deixam… assim… a pensar no meu passado… e nas decisões que tomei…
Será possível? Será possível alguém chegar a esta minha doce idade dos 44 anos… e dizer… apesar de muitos não me terem compreendido… que a minha vida… me proporciona esta paz… esta paz… de ter tido razão… esta paz… de ter vivido… o que vivi… mas, no entanto,… a sentir-me tão só… constantemente…
Mas, com as reações que fui tendo… acabar sempre por dizer… obrigada, Vida… obrigada por me ajudares a querer e a conseguir resolver tudo sozinha. A tal dita… solidão minha… mas não de mim!
Será possível? … Viver tudo aquilo a que ainda temos direito?
Tenho grandes amigos nesta vida… nesta passagem… Tenho… gente. Tenho tanta gente à minha volta… que… a cada dia que passa… me faz sentir que a minha vida, afinal, está longe de ter sido em vão…
Felizmente, seja o que for desse futuro tão próximo a cada um de nós… eu… pedi para me encontrarem, para me verem tal e qual como sou…. Pedi… e perdi… e tive… e não tive…
Dos que não tenho… Dos que não tenho nada que me façam voltar aos dias de liberdade… desse futuro tão estranho que já ninguém hoje tem… toda aquela coragem… todo aquele amor imenso!
Lamento! E não chorem a história que um dia poderei deixar… É que nunca me deram a coragem para vos seguir…
Se vos faltou amor… ou atenção… Meu… minha… é que não me deram coragem para continuar a minha história… apenas arrependimento… e… isso, da minha vida,… não sinto…
Seja qual for a história que venham a escrever acerca de mim… lembrem-se… apenas de um pormenor… Aquilo que eu fiz… sem que vocês esperassem que eu o fizesse.
Isso… pode mudar tudo… nessa «tal» vidinha sem passado…
Eu, de facto, tenho uma forma de ver a vida… tão simples!
Tão simples… e completa que a minha vida tem sido… E tão complicados e merdosos… que alguns ainda são.
Viver tudo o que ainda tenho direito?... Comigo e eu própria… com aquele meu tormento de ser sensível… e… ver! Reparar… e saber….
Saber… que tenho direito a tudo! Depois… de tanto roubarem o que sou.
Esta paz… afasta-me… e vocês ainda perguntam porquê!
Porque já não sinto que ainda tenham esse direito… o direito a saberem o que sou… após tantos e tantos anos… e… nunca o terem descoberto!
Será possível?...
Eu querer-me a mim… por falta de tempo para tudo o que a vida me possa dar?
Sim, é possível… eu tenho direito a viver… umas horas… um dia… alguns meses… ou até mesmo anos… Com quem me dá amor e coragem… com quem me procura todos os dias… a interessar-se… a querer saber se eu… se eu, estou bem… se não há ninguém… por muito que diga que me ama… que seja capaz… serei apenas eu…
Sou… serei apenas eu… que me pergunto… a mim própria… se isso é possível?
Será possível eu… viver… tudo aquilo… a que tenho direito?
Com tanta gente… na minha vida. Será possível?
***Texto editado por Pi Sousa Pires a quem agradeço o tempo que me dedica.


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