O que te diria...

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Pensei muitas vezes no que te diria... mesmo com este jeito... lembraste? Gostava de te fazer rir com a minha mania de ser mandona...tu achavas que tinha jeito... fazias-me sinais para avisar a mana e os primos...Claro que depois... tinhas de ser tu a por ordem na casinha de madeira... Meu Deus... que saudade.   


No que te diria... se te reencontrasse? Talvez, não conseguiria dizer nada.


Não foi fácil viver sempre a querer falar-te. Ver-te de longe e, não conseguir correr para ti e pedir o teu colo como o lembrava...


Era sempre complicado... tu sabes.


Mas, eu... lembrava-me das vezes que te zangavas com os primos para me defender... e de como gostavas que eu gostasse de andar no campo... a menina rapaz... mas, menina. Que tu abraçavas... e ías mostrar como se apanhavam caranguejos... ou a pescar no mar, com o pai. 


Foram pequenas memórias que criamos juntos... mas, nunca me esqueci da torre onde me contaste aquela história sobre a menina que não tinha medo de nada. E, por isso, perdi o medo do escuro. Fizeste-me brincar aos fantasmas com o primo. Piscavas o olho quando todos se zangavam por estarmos a fazer tolices... Eu, gostava de te ver sorrir... tanto! Tu.. eras muito sisudo... e, com os primos... eles tinham de se portar muito bem... parecias mau (a tua educação era essa)... mas, revelavas sempre um lado muito meigo e amigo... e, quando rias... rias!


Gostavas de me mostrar os livros... e perguntavas se tinha força para os segurar... e, eu fazia-me de forte! Dizia sempre que sim... mas, tu colocavas sempre a mão para ajudar. Eu sabia... mas tu dizias... que um dia me enganarias e deixarias de ajudar... que, eu saberia quando é que não me ajudarias...  


Os patinhos... as flores... como gostavas de me mostrar as flores diferentes que colocavas no jardim...


De repente... tudo se apagou. Apenas te olhava de longe... e, olhava o jardim... e, já não havia flores. Isso magoou-me muito. Queria ter-te dito isso! Deixaste de ter flores no jardim...foi por isso? Pelas nossas conversas sobre as flores e os bichos? Ficaste zangado por eu não mais ter ido ver o jardim? Eu, senti que sim. Desculpa.


Queria ter-te dito tantas coisas... e, quando soube, e estava a chegar... adormeceste sem sequer me dizer adeus. Não consegui pedir desculpa por não ter ido ver as tuas árvores, as flores, os bichinhos e as pedras do teu jardim. Desculpa.


Sabes qual o meu livro favorito? Sim... esse que contaste a história e disseste que um dia o iria ler... "Fidalgos da Casa Mourisca" de Júlio Dinis... Dizias que era o livro que o teu pai lia...e eu, também leio sempre. Não me canso de ler essa história. Faz-me lembrar de ti.


O que te diria... Que apagaria todos os dias em que deixei de te ver e de te falar...


... talvez não diria nada... um abraço, padrinho, titio.


Não perdoo à vida por ter de pensar no que te diria...


Não perdoo à vida por me ter colocado longe de ti.


Tu... sabes disso, não sabes?


Não perdoo.


O que te diria... titio...que ainda hoje, me lembro de ti.


Tenho saudades.


Saudades.


Desculpa por saber que não há mais flores....mas, um dia... eu levo-as para ti... as minhas.


Prometo.


 

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