Quando a Noite me ensina a Escutar
Há qualquer coisa na noite que sempre me chamou...
Não sei explicar bem… talvez seja o silêncio, talvez seja a forma como tudo abranda sem pedir licença. Durante o dia, sinto-me muitas vezes arrastada pelas tarefas, pelas pessoas, pelas ideias que não param. Mas à noite… é diferente.
É como se finalmente houvesse espaço...
Espaço para respirar. Para sentir. Para escutar.
E eu gosto disso... de Escutar...
Gosto dessa sensação de estar na estrada... mesmo parada... Como se houvesse um mundo invisível a acontecer, mais subtil, mais verdadeiro.
Um mundo que não se impõe, mas que está lá… à espera que alguém tenha tempo (e coragem) de o sentir.
O meu mestre Kiá costumava dizer:
"A noite escura não é para quem tem medo, é para quem sabe escutar."
E isso ficou-me.
Porque eu sei que nem sempre sei escutar...
Falo demais, penso demais, antecipo demais....Mas quando me permito parar… quando simplesmente fico em silêncio… algo muda.
Não é nada de dramático. Não há vozes, nem sinais claros. Mas há uma espécie de entendimento tranquilo, como se o caminho se organizasse por dentro...
Como se alguém dissesse: “está tudo certo… continua.”
Mas a verdade é que nem sempre está tudo certo...
E talvez seja isso que a noite também me mostra.
Há noites em que o silêncio não traz só calma... traz saudade.
Traz a falta de alguns… de pessoas que já não caminham ao meu lado, mas que continuam presentes de uma forma que não sei explicar...
Às vezes, é num pensamento que aparece sem aviso. Outras vezes, é numa sensação… como se, por um instante, estivessem ali.
E eu fico entre a paz e a dor.
Entre o conforto de sentir… e a ausência de não poder tocar.
A noite não esconde isso...
Amplifica...
E, ao mesmo tempo, ensina-me a aceitar.
Talvez por isso eu sinta que sou… diferente...sempre diferente...
Há uma forma minha de estar no mundo que nem sempre é fácil de explicar aos outros. Sinto mais, penso mais, observo mais.
Às vezes, parece que estou noutro ritmo...como se não encaixasse totalmente no barulho do dia.
E durante muito tempo questionei isso.
Se era demais. Se era estranha. Se devia ser diferente...
Mas a noite tem-me ensinado outra coisa.
Tem-me mostrado que talvez não seja um erro… mas um caminho.
Que esta forma de sentir...mais profunda, mais silenciosa, mais intuitiva... não é fraqueza.
É escuta.
É ligação.
É estrada.
À noite, sinto mais isso.
Sinto que há uma presença diferente na estrada... Não algo que me assuste... pelo contrário, algo que me acalma. Como se houvesse guardiões silenciosos, atentos, firmes… a fazer o seu trabalho sem precisar de ser vistos.
E talvez o mais importante seja mesmo isso: não tentar ver, não tentar provar.
Apenas respeitar.
Às vezes, faço um gesto simples... Parar uns minutos, olhar para a noite e, em silêncio, pensar:
“Salve o povo da noite. Que haja proteção e equilíbrio nesta estrada.”
E fico.
Sem pedir nada. Sem esperar nada.
Só a sentir.
Porque começo a perceber que as respostas não vêm em palavras.
Vêm como intuição. Como um leve ajuste por dentro. Como uma calma que não sei explicar, mas que reconheço...
O meu mestre Kiá também me ensinou:
"Quem fala demais não ouve nada. Quem aquieta o coração escuta tudo."
E eu estou a aprender isso… devagar.
Com as minhas saudades. Com as minhas dúvidas. Com esta forma estranha... mas cada vez mais assumida...de ser.
Talvez seja esse o verdadeiro caminho: não procurar tanto fora, mas criar espaço cá dentro.
A noite, para mim, já não é ausência de luz.
É presença.
É memória.
É encontro.
E, no fundo, é quando tudo fica mais escuro que começo, finalmente, a aceitar quem sou… e a ver melhor..



Comentários
Enviar um comentário