Aquelas pessoas que mudam a nossa vida...

Quem não tem na vida alguém especial? Alguém que nos evidencia as nossas melhores características mesmo quando nem nós acreditamos nelas! Eu tenho uma pessoa que, apesar de nunca mais ter visto... me fez acreditar que as palavras podiam fazer alguém feliz. A minha professora da primária. Sim!


Eu era uma criança cheia de vida e vontades. Adorava ver todos os que me rodeavam felizes e brincalhões. Sofria imenso quando isso não acontecia. Nos meses antes de ter conhecido a minha professora, todos zangados, a sofrer...Mudanças na vida familiar... tantas "coisas" estranhas para uma menina de 6 anos.


Cheguei àquela escola nova, tão diferente da minha... sem os meus amigos... fiquei cheia de medo. Poderiam gostar da menina da aldeia que adorava andar a sujar-se com os animais?


Lembro-me do primeiro dia tão bem! Fiquei junto da professora para ela me apresentar à turma. Olhei os meus colegas um a um... a pensar quem me daria o sorriso que esperava! Todos os colegas foram simpáticos... a professora... meu deus, uma preocupação tal...que até me levou a conhecer a casa de banho. Naquele dia, forçou a minha ligação com os meus colegas... e eu, adorava-os a todos!


Com o evoluir dos anos, eu sentia que a matemática era especial!!! Eu queria fazer contas!! Quantos mais números melhor!!! Mas, a minha professora, não me dava deveres de matemática para fazer. Eu zangava-me! Sentia que ela me estava a tratar de uma forma diferente....Ela sabia que a minha mãe trabalhava até tarde e, apesar da minha mãe ser professora, ela nunca teria tempo para ver os meus deveres. Eu achava que ficava na sala depois da hora de sair... porque a professora me colocava de castigo... por nos intervalos eu brincar à rapaz!! Mas, ela falava tão bem...comigo. Ajudava-me. E, eu, nunca, na verdade, fiquei triste por ficar na escola quando todos já lá não estavam.


Ela sorria quando entregava os resultados dos ditados... zero erros. Até que errei na palavra perfume. Escrevi prefume. O Castigo era uma reguada por cada erro que davamos... e, eu, ao ver os colegas com erros.... estremecia... Uma colega dizia-me antes de ser chamada... o segredo para não doer... era colocar a mão adormecida... Até hoje, não percebi como assim não poderia doer!!!


A professora disse o meu nome. Mostrou-me o erro. Eu... pedi-lhe: - pode lê-lo? Pela primeira vez em 7 anos percebi que mais valia ter estado calada!!! A professora lia.."prefume". Logo argumentei que o problema dos erros não era nosso! Não me safei da reguada... mas, os ditados passaram a ser lidos por todos nós na sala.


Nesse dia, os deveres eram contas de dividir. Eu, comecei logo a fazer e, mesmo antes da professora mandar sair... tinha as contas feitas. Mas, escondi. Menti... como tinha de ficar na sala até a minha mãe me poder ir buscar... e, estava com medo que ela tivesse uma conversa séria por eu ter sido resmungona... disse: - estas contas são dificeis! Mas, quem eu tentava enganar? Não olho nos olhos quando minto! Ela melhor que ninguém sabia disso...


Apesar de eu sentir que ela me deu razão. Nunca a minha professora me o disse. Antes, entregou -me um caderno dos pequenos, com 50 páginas...e disse-me: - Só sais da sala quando todas as linhas deste caderno forem preenchidas por histórias. Credo! Professora!! A minha mãe vai ficar muito tempo à minha espera... e, ela, não pode esperar muito!


A professora riu-se. Então, Claudia, é melhor começares.


Achei injusto. Tão divertido fazer contas!! Manda-me escrever! Não gosto de escrever! O que vou escrever!


As capas dos cadernos, inspiravam as histórias.


Escrevi muitos cadernos.


Quando entregava, achava que a professora me iria corrigir e, no dia seguinte, palavras como "prefume"... seriam severamente punidas. Mas, mesmo que eu me portasse mal no recreio, na sala (com as minhas manias de injustiça), a professora mais me pedia para escrever e, nunca se zangava comigo.


Passei a escrever sem ela pedir... a ler todos os livros que encontrava na biblioteca do meu pai. Até livros de política lia. O meu pai até dizia: - Outro livro? Tu achas que ler assim tão rápido ficas a saber a história?


Devorava todas as histórias que me poderiam dar mais palavras para descrever o tudo o que queria!!


Só quando publiquei o meu primeiro artigo no jornal da terra, aos 12 anos... percebi porque tanto a minha professora queria que eu desse menos importância à matemática... e mais importância às palavras.


Senti o orgulho nos olhos dela. Eu, sou objetiva. Prática. Instintiva. Se não fosse esse "castigo"... talvez nunca teria escrito nada na vida. E, sempre que posso... preencho cadernos, folhas... com todas as palavras que encontro para descrever... o nosso momento de liberdade, de criatividade... o nosso momento de fazer com que todos sintam o que sentimos quando escrevemos cada palavra.


Essa liberdade... devo a si... professora. Alguém que percebeu o que, com 7 anos, eu já tinha sofrido e vivido... e, me fez aprender a desabafar numa folha. Aquela menina que não parava um segundo e... tinha sempre que falar... mexer!! Num momento, ficava feliz ao olhar para uma capa de um caderno e... relatava a minha história camuflada de tantas personagens... e, como era uma história, alguém sabia a verdade. E, a senhora professora, sabia... e transformou a minha realidade em sonhos... sonhos com finais felizes.


Professora Conceição, esteja onde estiver... aqueles cadernos, fizeram com que eu fosse capaz de suportar tudo o que vivia. Obrigada.

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