Antes Quebrar do que Torcer

 


Há casas que não se fecham com uma chave.
Ficam abertas dentro de nós, com as janelas a bater devagar, como se o vento soubesse que ali ainda mora qualquer coisa por arrumar. 
Não são paredes nem telhados ...são memórias encostadas umas às outras, silêncios que conhecem o nosso nome, e um certo cheiro a tempo que não volta.
Há partidas que não são bem partidas. São desvios. Interrupções feitas de amor, de urgência, de prioridade. Caminhos que se escolhem não porque são fáceis, mas porque são certos. E no meio disso, deixamos pedaços de nós em lugares que acreditávamos seguros.
O estranho não é o que se perde. É o que fica.
Ficam os vestígios. O desalinho. A sensação de que alguém passou por ali sem perceber que aquele espaço tinha dono... ou pior, sabendo, mas não importando. Como se o cuidado fosse opcional. Como se a delicadeza fosse um luxo.
Há um tipo de dor que já não é só tristeza...é indignação quieta.
Não vem em gritos, vem em pensamentos repetidos. Naquela sensação amarga de injustiça que se instala devagar e não sai. Porque há coisas que não são só sobre o que aconteceu… são sobre o que foi permitido que acontecesse...
Há quem entre na vida dos outros como quem entra num lugar sem dono. Escolhem o que lhes convém, levam o que querem, e saem sem olhar para trás. Sem peso. Sem consciência. Como se não houvesse história, como se não houvesse alguém.
E o mais difícil de aceitar não é sequer o gesto em si. É a leveza com que o fizeram.
Como se fosse normal.
Como se fosse merecido.
Como se não fosse preciso deixar nada em ordem...nem por fora, nem por dentro.
Fica um desalinho que não é só físico. É emocional. É moral. É humano.
Fica a sensação de que houve abuso de confiança...De que houve aproveitamento disfarçado de proximidade. De que houve pessoas que estiveram perto o suficiente para saber… e mesmo assim escolheram não cuidar.
E isso revolta.
Revolta perceber que se esteve presente, disponível, generoso...e que, no fim, isso serviu mais para facilitar a saída dos outros do que para construir algo verdadeiro...
Revolta sentir que houve quem levasse mais do que coisas. Que levou respeito. Que levou consideração. Que levou, talvez, até um pouco de dignidade.
E depois há aquele pensamento difícil de engolir:
como é que alguém que fez parte… consegue agir como se nunca tivesse importado?
Isso deixa marcas...
Não necessariamente de fraqueza... mas de alerta. De consciência. De um certo fechar de portas que antes estavam abertas sem esforço.
Porque há uma diferença entre ser bom e ser permitido demais.
E talvez este seja o ponto de viragem: perceber que a culpa nunca esteve em dar, mas em não ter colocado limites a quem não sabia parar...
Há uma dor silenciosa que não vem da perda...vem da confiança.
Não é o que levaram. Não é o que ficou.
É o que eu acreditei!!!
Acreditei que quem entrava no meu espaço sabia o que isso significava. Que havia um entendimento invisível, quase sagrado, de cuidado, de respeito, de medida. Acreditei que dar não era um risco. Que abrir portas não implicava, um dia, encontrar tudo escancarado por dentro...
Mas há um momento, lento, quase impercetível... em que a realidade começa a desfazer essa ideia. Não com um gesto grande, mas com a ausência dele. Com o que não foi feito. Com o que foi ignorado. Com o descuido que fala mais alto do que qualquer palavra.
E é aí que dói.
Dói perceber que confiámos em quem não soube segurar essa confiança...
Dói entender que aquilo que para nós era valor, para outros era apenas conveniência...
Dói, sobretudo, a diferença entre o que demos… e o que recebemos de volta.
Porque confiar é sempre um ato de entrega. 
Não se faz pela metade. Não se protege com distância. Confia-se inteiro...ou não se confia!
E quando essa entrega encontra desatenção, indiferença ou até aproveitamento, o que se quebra não é só a relação. É uma parte da forma como olhamos para o mundo...
Fica uma espécie de vazio desorganizado. Não só à volta, mas por dentro. Uma pergunta sem resposta: quando é que deixámos de ser vistos?
Mas depois, no meio dessa poeira emocional, há uma verdade silenciosa que começa a ganhar forma: aquilo que damos com verdade nunca nos diminui. Revela-nos. Mesmo quando cai em mãos erradas.
E talvez seja isso que custa mais... não a perda, mas a desilusão de ter acreditado que o cuidado seria recíproco.
Ainda assim, há uma força estranha em recomeçar a partir do que não sobrou. Em limpar o que não fomos nós que sujámos. Em voltar a escolher o que fica...desta vez com mais critério, mais limites, mais consciência.
Aprender, sim. Ajustar, também. Criar limites, sem dúvida.
Mas endurecer ao ponto de perder aquilo que nos define… isso seria uma segunda perda.
Porque confiar, apesar de tudo, continua a ser uma das formas mais bonitas de coragem.
Só precisa, agora, de ser mais bem guardada.
E no meio de tudo isto, há uma certeza que se impõe, firme:
antes quebrar do que torcer!
Porque há coisas que podem ser levadas, desorganizadas, desrespeitadas...
mas aquilo que somos, quando é inteiro, não se dobra à falta de carácter dos outros.
Pode doer. Pode partir.
Mas não se trai.
Porque no fim, uma casa nunca foi só um lugar...
E aquilo que somos… também não cabe no que ficou para trás.

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