Um desastre nunca vem só...

Texto Editado por Pi Sousa Pires
Este tema é dedicado a uma amiga. E quantas amigas não irão querer lê-lo…
Conheço a vida como se ela teimasse em fugir de mim. A dor de alguém é sempre para mim… a minha própria dor. Já algumas vezes referi esta minha sensibilidade… este contacto com o desconhecido que muitos ainda ignoram. E que a mim… me faz sofrer.
Este meu dom de sentir e ver para além do que a vida mostra… é algo com que poucos se conseguiriam manter com os pés assentes na terra. É que, por vezes… torna-se mesmo difícil enfrentar determinados factos…
Há sempre uma altura do nosso desenvolvimento enquanto pessoas em que nos vemos confrontados com a vida ou com o sonho…
Somos muito jovens para perceber a vida… e por isso enchemos de sonhos a nossa alma. A nossa personalidade. É quando tudo ainda parece fácil… mas, com o tempo, vamos aprendendo que a vida é difícil… A vida raramente é o sonho que projetamos para nós. Vem um sonho atrás de outro… um sonho tão normal que parece ser normal… o sonho de formar uma família normal… como todos esses sonhos de energia perfeita e em perfeito equilíbrio com tudo e com todos!…
Quando somos jovens sonhamos e, por isso… a cada passo que damos fazemo-lo sempre cheios de coragem e valentia. Até ao dia em que um desastre acontece…
E, então, é nesse dia que nos apercebemos que a vida, afinal, não é um sonho fácil. Muitas vezes achamos que estamos no caminho certo e que nos levaria a estar tão bem como tantos outros, um caminho que nos permitia… sonhar… só que, de repente, surge uma árvore caída que acabará por não nos permitir chegar onde tantos outros conseguem…
Talvez por sermos jovens… sofremos mais do que a medida!… E pensamos que não é suposto ser a mim, logo eu… com tantos sonhos, que a vida me vai roubar o que mais me pertence por direito próprio… Aquilo que me permite ter uma união com os do meu sangue… numa perfeita harmonia, própria de uma verdadeira Família.
Não é suposto eu ter de pagar por um erro na vida!… Então, e os meus sonhos? Então essa minha realidade de querer viver e crescer sendo alguém no meio de quem me ama mais que tudo? Por que não o posso alcançar? Porque é que a vida, nessa realidade cruel, me tira aquele pedaço que me permitiria ainda continuar a sonhar?
Passam os anos e os desastres sucedem-se… mas, esse enfrentar da primeira realidade… que não há sonhos que possamos levar connosco ao longo da nossa caminhada… que se foram perdendo ao longo do tempo… esse enfrentar da realidade da vida já nos condenou a tantos e tantos ruir de sonhos que foram sucedendo!… E a dor é de cada vez maior, como de cada vez maior é a nossa necessidade de reverter esses desastres em… novos sonhos!…
Temos direito a pretender refazer tudo… e a alinhar com quem permaneceu… ao nosso lado.
Todos os dias nos vem à memória o que ficou por dizer… o que ficou por fazer… aquele abraço que não se deu… E lá vem o inexorável aceitar, o ter de enfrentar com outros olhos… mesmo sabendo que a vida não é um sonho!… É aquela realidade que nos permite, dia-a-dia, recuperarmo-nos do que acabou… e sonhar de novo!…
Só que nem sempre estamos predestinados a aceitar e a enfrentar. A nossa juventude como que nos condena a ter de enfrentar desastres atrás de desastres… porque, sendo jovens, somos ainda demasiadamente crentes na vida!
E como superar tudo isto? Claro que não é fácil.
Eu falo por mim… porque sou alguém que já passou a juventude… e que caminha para uma reta que… um dia irá ser… a última!…
Por nunca perdoamos esses desastres… condenamos a nossa vida como que a uma juventude de rebeldia. De querer fazer acontecer… e logo… apercebemo-nos que se sucedem os desastres… uns atrás dos outros.
Eu… tive uma ligação muito forte com duas pessoas na minha vida!… Uma delas… era o meu herói. Alguém que me deixava mexer em tudo. Que adorava ver-me a explorar a natureza… e também alguns mistérios…
Tinha um semblante carregado… mas, sempre que me via… eu sentia o seu sorriso… a aparecer… radioso!…
E, com ambos, eu podia fazer… eu podia ser marota e irrequieta. Eu podia ser corajosa. Havia neles sempre um olhar que brilhava quando me viam. Ambos sentiam que eu… era… diferente.
Entretanto, essas pessoas desapareceram da minha vida… e tudo… se desmoronou.
Mais tarde… outra pessoa que vivia em minha casa… era alguém imensamente doce. Tão parecido comigo!… Tão dono de si… tão do género… «não quero saber»… Eu… vou!…
Mas, um dia, também ele desapareceu. E voltou a aparecer mais tarde…. Mas… quantas e quantas vezes não tive medo dele!…
Uma ocasião emprestou-me um disco do Roy Orbison e, eu… tive a certeza que um dia o voltaria a ver… de tal forma eu sabia como ele era…
Estou a falar-vos agora do desastre que constitui a perda de alguém. Os outros desastres… ficarão para uma outra oportunidade…
Um dia… acabara de pentear outra pessoa, porque sempre dizia que queria que ela estivesse bem. No tempo durante o qual vivi com ela… nunca me deixou sair de casa sem estar penteada e foi ela que me ofereceu o meu primeiro batom. Ensinou-me tanto acerca destes sonhos perdidos… precisamente pela sua própria vivência… Ela nunca conseguiu a sua verdade… e sofreu de tantas injustiças…
Ela adorava morangos. Tinha acabado de os saborear… Todos que estavam com ela a amavam… mais que tudo.
Mas,… ela morreu de amor por sonhar esse sonho de juventude… por sonhar com uma família!…
Ainda tentei salvá-la… porque tinha estudado para ser socorrista. Mas fui sentindo perdê-la… sentindo o seu coração a enfraquecer na ponta dos meus dedos…
Havia quem a amasse demais… mas… esse amor… esse sonho que se perde na juventude… marca e remarca… magoa… dói… e nunca nos larga!…
O nosso erro é ficarmos demasiadamente ocupados em rever o nosso passado…
O meu avô e a minha avó… ensinaram-me isso.
A nossa maneira de ver as coisas… é a de quem não tem noção.
Sofremos muito… Acumulamos tudo…
A vida… afinal é um sonho! Volta constantemente a dar-nos oportunidades… mas o que fazemos?
Somos sempre aquele ou aquela que viveu… e sobreviveu… desastre atrás de desastre… Somos sempre aqueles que achamos que já vivemos muito. E somos sempre nós… somos sempre os maiores sofredores!…
E isso mata.
Isso faz de nós pessoas desconfiadas.
Isso faz de nós pessoas gananciosas.
Isso faz de nós pessoas revoltadas que acham que merecem mais que todos os outros…
A vida… a toda a hora lembra-nos… que os sonhos… são novas oportunidades…
Eu, na minha vida… sofri. «Foda-se»… oh… se sofri!…
Mas também aprendi. Aprendi que posso manter aquela essência da menina que alguém olhava com olhos brilhantes de orgulho… com todas aquelas cicatrizes bem visíveis. Marcas que não consigo esconder… Mas que continua a dar a mim própria… mais uma oportunidade de viver… sempre na minha essência.
Se dói? Dói! É claro que dói!… Magoa… magoa imenso muitas vezes dar oportunidades a quem nem sequer devia pensar vir a tê-las e ainda menos… merecia tê-las!…
Dói muito reviver tudo, mesmo sabendo que já se sabe a lição. Já se sabe o que vai voltar a acontecer!… É a vida!…
Ainda assim… consegues superar mais um e outro desastre.
Simplesmente porque… já percebes perfeitamente… que a vida é um sonho… «o» sonho.
E é quando chegas à conclusão que tens o direito de enfrentar a realidade… de seguires em frente… de prosseguires o teu caminho sem as mágoas… sem as merdas que viveste.
E é quando, ao acordares… todos os dias te lembras daquela menina que tinha sonhos!…
E por que raio é que te tornas assim tão sofredora?
Ou a achares que a tua dor… merece ser vincada em seja quem for… É simples: é porque «tu» tens direito aos teus próprios sonhos…
Sim… «eu» tenho direito aos meus sonhos. Mas… mais que isso… tenho direito à vida!…
Tenho direito de ser e ter a minha própria essência. Mesmo que venham uns quantos merdosos tentarem tirar-me o que sou… ou tentarem desviar-me do que sou…
A vida continua. Não tenho direito a ser mais do que sou… só porque já sofri.
Nunca terei mesquinhices no meu coração.
O passado… passou. O presente ensina… O futuro… é voltar a ser a menina cheia de vida e vontade… Aquela menina sem malicias, sem histórias… sem merdas. E, sobretudo,… sem marcas!…
Isso afasta-nos… a vida ensina-nos. Oh… se ensina!…
Hoje aprendi tanto!…
Amanhã… quero voltar a saber lidar com isso… da mesma forma que eu soube ser eu… quando ainda era uma criança.
Há poucos que percebem isto…
Da mesma forma que há poucos que me entendem!…
E sobretudo há muitos que a cada passo se revelam…
Triste, triste é… a falta de ligação ao primeiro «eu»… àquele que primeiro sonhou… e que… tudo perdeu!…


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