Todas as cartas nos dias de hoje são… ridículas? Ou será que tudo o resto também é ridículo?

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Todas as cartas nos dias de hoje são… ridículas? Ou será que tudo o resto também é ridículo?


***Texto Editado por Pi Sousa Pires


Todos sabem – nunca escondi isso de ninguém, neste blog, nem em lado nenhum – que sou fanática por Fernando Pessoa e seus heterónimos. As suas obras acompanham-me desde sempre. Num dos seus poemas, Álvaro de Campos escreveu:
«Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.»
Pois… «esse» ridículo a que o autor se referia… está longe, bem longe, do «meu» ridículo! De facto, nos tempos que correm… essas cartas… seriam… caricatas, únicas… e de muito pouco ou nenhum valor!
«O ridículo» nos tempos de hoje… de agora… é bem mais ridículo do que o sentido da mesma palavra que percebemos em Álvaro de Campos…
Acima de tudo, eu… menosprezo… abomino o que nos dias de hoje existe… o que nos dias de hoje se vê e se passa…
Infelizmente… já não se utilizam cartas nos dias de hoje… E, se existissem,… seriam de igual modo ridículas, mas… no sentido mais frio dessa palavra… não «nesse» sentido do… «ridículo» do amor nos tempos… «naqueles tempos» em que «ainda» existiam… valores humanos…
Incrível!… não é incrível? Quem não tem gavetas, ou outros locais sombrios… «escondidos» na nossa casa onde fomos colocando coisas que queremos guardar, mas que, sabemo-lo bem, no imediato, nos tempos mais próximos… não iremos… precisar delas?!
Eu… confesso,… guardava tudo… Sim,… guardava… talvez… por não querer recordar a minha própria história… face… a tantas e tantas e tantas ingratidões… ilusões… enganos… perante tantas e tantas benevolências e… sobretudo… caridade. Sim! Tudo isso no seu auge, no seu extremo.
É claro que guardamos em locais mais escondidos… tudo aquilo que sabemos que de alguma forma teve… ou até ainda tem valor… – senão não o guardávamos! Tudo aquilo… que, dizemos nós,… nunca mais iremos ver… mas… guardamos, vamos guardando… Vá-se lá entender esta forma de utilizar – ou… «preservar»? – o passado! Eu… utilizei-o… eu… utilizo-o… eu vou «buscá-lo»… muitas vezes… oh… quantas vezes!
Mas, não quer dizer que «essa» seja a melhor forma de nos vermos… Talvez seja… «uma forma» para nos… entendermos… – ou para nos… justificarmos?! A forma como agimos perante este ou aquele problema… muitas vezes vai ficar… guardado nas «nossas gavetas»… sejam elas físicas, reais… ou mentais… entre as folhas de um livro do qual só nós gostamos… e… apesar do coração até talvez já nem se lembrar… essa prova que guardaste… far-te-á… recordar… ou perceber que seguiste pelo único caminho que, em determinada altura tinhas de seguir… e seguiste… – e prosseguiste!…
Recentemente, encontrei, imensas cartas… Cartas de amigos, da família… de amores assumidos e… até de alguns amores que se me declaravam sabendo… que… estavam muito longe de mim. Estes últimos… conseguiram algo que… nas redes sociais… eu nunca faria: guardar uma mensagem, um texto… Coisa que eu… abomino!
Pois… mas eu guardei uma carta. Uma carta cheia de erros!!! Uma carta que pretendia ter a emoção… o sentimento… a poesia… o tal «ridículo» que, no fundo, Álvaro de Campos refere… Mas eu guardei-a, apesar de, naquela altura… lembro-me… a ter desprezado completamente! A pessoa que ma enviou… era um bom amigo meu… eu não queria pensar… eu não imaginei que pudesse ser outra coisa! Logo… ignorei-a… mas, hoje… que a reli… apesar dos erros e da «poesia» como a de uma canção pimba… eu dei-lhe o maior valor! E gostei de a recordar… Na altura… este amigo… mereceu as minhas palavras… por se ter manifestado… mostrado… a mim… de uma forma que o… diminuiu… mas… que eu… achei ter sido um enorme ato de coragem… e expliquei-lhe os meus sentimentos… e ainda hoje… somos grandes amigos!
Neste «limpar de recordações»… percebi por que sou uma pessoa adversa às mensagens nas redes socias… aquele «plim»… enerva-me! Uso as redes sociais para o trabalho e isso, nos dias de hoje,… faz todo o sentido… mas… aquele «plim»… e vou ver… e nada! Nada! Nada de interessante… Mesmo se bem espremido, não há ali nada que me possa fortalecer enquanto mulher… naquele «estilo» antigo… naquele tempo… em que existiam valores… verdadeiros valores – felizmente, ainda há quem os tenha vivido e se recorde desses tempos! Nos tempos em que o ridículo era quase um sentimento,… na altura de Álvaro de Campos!… não o ridículo dos dias de hoje em que «essa palavra»… faz jus ao seu significado: insignificante… irrisório… sem valor… grotesco…
Quem é que hoje em dia envia cartas aos seus amigos? Às pessoas que amam? Ninguém! Naquela altura, sim, havia… colocava-se toda a emoção nas cartas… Hoje em dia… nas redes sociais… isso não existe!
Até podemos… até é tão fácil hoje em dia estarmos «próximos» de amigos que nunca mais «encontraríamos» se não fossem as redes socias… mas… no entanto… permanecemos imensamente longe… sem um selo a comprovar… sem poder «mostrar» a saudade… a preocupação… «a amizade»…
As cartas… as «antigas» cartas… faziam-nos querer saber das pessoas… intensificavam a nossa saudade… aquele desejar ver quem realmente nos era importante… de saber como estava… como lhe corria a vida… e nós respondíamos… dávamos valor… correspondíamos… Correspondíamo-nos!...
E havia a certeza… de que escrevíamos o que «realmente» sentíamos… não aquele seco… distante… «ok»? Tudo bem. E contigo? Tb…. Bj… Abreviaturas e tudo… E «tudo» abreviado!... Às vezes, lá nos chega um «beijo», por extenso… que trabalhão… mas tudo se resume a isso! Com, ou sem abreviaturas!... É fantástico… não é? Não temos tempo… colocamos uma cara feliz… e «fora figo»! Estamos bem… «Está-se bem!»
Se naquele momento em que recebes o «plim» estás numa reunião… não podes dar atenção… mas… furtivamente, lá envias um… «Ok», «Tb»,… e, claro está… «Bj» – tinha de ser!... faz parte!...
Mas tudo isto é… tornou-se… deveras ridículo! A mim… falta-me a paciência! Desiludo-me… facilmente… Há pessoas… ou melhor, há «personagens» que… no meu filme… nem sequer chegam a entrar!
«Personagens» que querem… que pretendem à viva-força ser aceites por mim… Posso e tenho toda a legitimidade para o dizer! Há pessoas… que valha-me Deus, valha! Só por ter de ouvir «aquele plim»… que paciência…
Eu… sei! Sei muito bem que sou… bastante seletiva! E até complicada… como muitos dizem… E antipática!... Isso tudo!... Pois sou! Só que o sou para «certa»… «gentinha»!… Sou… sou… sou bastante seletiva!
É que… me tornei numa Mulher… uma Mulher que não se surpreende com pouco… e muito menos com nada! Que é aquilo que muitos e muitos demonstram ser: um nada… um enorme vazio… um terrível ridículo… no mais profundo sentido da palavra…
Gostava mais do ridículo de Álvaro de Campos… mas… os valores, hoje, nos dias que correm,… já há poucos que os seguem… já são poucos os que os humanizam… os tornam reais… puros… como o «ridículo» em Álvaro de Campos…
Muitos comentam o fosso que construí… repleto de «crocodilos»! Mas…, desculpem lá, mas foi a forma mais apropriada que encontrei para proteger o castelo que construí para a minha «própria» vida…
É que… sabem? Fazem uma pequena ideia? Foi preciso muito… muito… mesmo muito para alcançar… para chegar ao que hoje sou.
Façam lá os vossos juízos de valor… Não me interessa! Quero lá saber do que sentem… Eu também já senti muito! Não foi por isso que senti necessidade de falar com desconhecidos… ou pessoas conhecidas pouco conhecidas… Da minha vida cuido eu… e cuidam as pessoas que me interessam… Essas… essas, sim, têm a minha resposta.
Cada desilusão por que passei… fez-me ter cada vez mais esperança em mim própria… e não em vós… Tudo o que me possa afastar de ser eu… desenganem-se… mas não entra na minha vida! É RIDÍCULO! É mais do que ridículo!
É tão fácil de saber quem gosta, mas quem gosta… mesmo… quem gosta verdadeiramente de nós!
Eu… terei nascido com uma… «imperfeição»… Terei nascido com a capacidade de perceber… de captar e ser afetada pelas energias de outras pessoas… Infelizmente… é uma capacidade inata para conseguir sentir e perceber intuitivamente coisas que nem todos percebem.
Imaginam agora a minha dor? Não… não conseguem imaginar!...
O ridículo dos dias de hoje… é esse… É presumirmos tudo! Ao ponto de presumirmos que… que… os amigos «estão» nas redes sociais…
E há «certas» pessoas que chegam a presumir que eu escrevo um texto… e que o texto é sobre o meu… ex… marido, companheiro de vida… seja o que for… e, eu… o que escrevi… foi, imagine-se, sobre o meu… companheiro canídeo!
Foda-se… Hoje em dia… basta uma «história» no Instagram… e todos passam a saber tudo acerca da minha vida! Ou melhor: presumem. Ou… é suposto que seja assim…
Eu, apesar de ser «velha» em valores, eu sei que sim! É suposto… É suposto… ver amigos… AMIGOS… nas redes socias e pensar… e saber… e é tão bom saber que… estão bem…
Oh… Se eu tivesse a oportunidade de ter uma morada…
Relataria as minhas preocupações… enviaria… as minhas palavras sobre a saudade que sinto… sobre a história que nos marcou… sobretudo… saber… que o carteiro… entrega a carta… que eu… quero… enviar a todos… a todos os meus amigos… AMIGOS… e… «aquela» emoção… a emoção de olhar para o remetente… querer avidamente abrir… e… responder… mas não com um seco… um frio… um mero «OK TD BEM».
Mas… e por que não?… continuar uma história… mesmo estando longe… poder estar ainda mais perto do que as redes sociais no-lo permitem…
Responderei a todos por carta… uma carta… «ridícula»… Uma carta tipo «daquele» tempo em que existiam valores…
Um desafio aos meus amigos… Podem enviar as vossas moradas… e responderei… sem me sentir sujeita à pressão do tempo… e… sem vos chegar qualquer «plim»…
Ah!... É claro: e serei «EU»… sem ser «ridícula», serei sincera com todos…

claudiadetavora@gmail.com

Comentários

  1. Olá Cláudia!
    Gostei muito do teu texto e aprecio a forma livre e espontânea como escreves. Os meus Parabéns!
    Imagino que não escrevas para receber elogios, mas eu gosto de os dar, quando entendo que são merecidos. E neste caso, considero que são!
    Sabes, mesmo sem nunca termos convivido (sou a tal conhecida desconhecida), a verdade é que ao ler os teus posts me identifico contigo, em muitas coisas. E hoje percebi porquê... porque eu também nasci com essa tal... "imperfeição" a que te referes e com a qual nem sempre é fácil de lidar. Já leste alguma coisa sobre PAS - Pessoas Altamente Sensíveis? Se não leste, recomendo. Acho que vais gostar.
    Um beijinho.
    Raquel Peinado Torres

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  2. Ola Raquel... ser PAS.. Sensitiva e Empatica.. sem se saber o que se é... é muito dificil. A vida mostrou-me da pior forma... até que eu quis entender-me... e.. sim... agora essa "imperfeição "... e esse sofrimento... passa por aceitar que é um dom. Sabendo gerir as emoções... recarregar energias... tudo fica mais facil de aceitar...
    Também eu tenho acompanhado o teu trabalho... muita força!!!
    Beijinho enorme!

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  3. Esse "dom" pode ser poderoso se for bem aproveitado!
    Bom para ti, conforme referiste e bom para os outros, quando descobres de que forma podes passar a ajudar os outros, por amizade, altruísmo e mesmo profissionalmente.
    Eu ainda estou nessa fase, na fase dos outros, na fase em que através do meu trabalho e da minha forma causídica de ser tenho ajudado a travar e a vencer algumas batalhas das quais muito me orgulho. . Mas começo indirectamente a receber os frutos do bem que faço e isso já é um começo do resto que há a fazer... por mim :-)
    Fica bem!
    RPT

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