Quando tu não tens mais nada…

*** Texto Editado por Pi Sousa Pires
Quantas vezes nos sentamos no nosso sofá com esse sentimento? – Não tenho mais nada! Não tenho nada que me recupere… Nada que possa dizer que realmente me pertence… esse nada que não nos permite sequer sentar no sofá!
Nada nos diverte, nada nos cativa… – somos nós, só nós, sentados num simples sofá!
Passamos o dia a ajudar, a cuidar, a completar, a mimar, a dar esperança… a mostrar o nosso melhor sorriso, a proferir as nossas mais bonitas palavras… a fazer o nosso mais árduo trabalho… e… lá vem, de novo, essa sensação tão estranha… de que, afinal, nos falta tudo! Que não temos nada…. E logo a seguir a termos tido tanto e a termos dado tudo!
E até o próprio sofá… nos parece desconfortável. Parece que ainda nos faz sentir com maior intensidade de que não temos mais nada! Que a vida foi passando e… apesar de termos tudo… esse constante estranho vazio de sentir que… não temos nada! O que é que isso significa?
Afinal, vendo bem… temos sempre qualquer coisa… e o cuidar, o trabalhar ou o fazer acontecer… nunca nos deveriam levar a pensar… que não temos nada!
Muito raramente me sento no sofá só para me sentar… Há sempre alguma coisa que faço quando nele me sento… o trabalho… a companhia e a conversa com os filhos… olhar para a televisão com a cabeça em tudo menos na televisão… sempre uma eterna correria! O meu sofá… só ontem… me confidenciou…
Quando tu sentires que não tens mais nada… vem sentar-te aqui… e… pergunta por que sentes esse tão desagradável vazio de achares que não tens mais nada! Sentes-te perdida nos teus pensamentos, na resolução de quantas e quantas sensaborias… mas nunca, nunca pensas verdadeiramente e… lá chegas, invariavelmente, à conclusão de que… «Não tenho mais nada!»
Ontem, finalmente, assumi… sentada no meu sofá… que não tenho mais nada senão aquilo que dou no meu dia-a-dia… a todos. E, sobretudo, não tenho mais nada senão aquilo que sou.
O que tenho de valor… e que ninguém agarra como eu. Ninguém sente como eu… Eu não tenho mais nada… senão a mim própria.
É que eu faço, mesmo o possível e o impossível.
No sofá… sem outros afazeres diários, aprendi… cheguei a uma conclusão…
Que, quando não tenho mais nada… tenho-me a mim.
Tenho-me a mim… para ter tudo! Para ter esse «nada» que construí… sozinha…
Tenho-me a mim… para me fazer recordar que, afinal, esse vazio… está nos outros e não em mim…
Que tudo o que existe… desse «nada»…
É alguém que por um momento… se sentou sozinha no seu sofá…. Pensando que não tinha mais nada… e, afinal… tinha tudo! Outros não repararam… não viram… não deram valor… – talvez porque nunca… nunca… me viram… me reconheceram… verdadeiramente como eu sou!
Quando tu pensares que não tens mais nada… lembra-te do tudo… o que és… Quando a vida te atirar à cara que não tens mais nada… diz-lhe, responde-lhe que tens esse tudo que tu és… e que, por seres tu, é tanto.
Desse mísero corpo que reclama descanso… quando te assalta a ideia de que não tens mais nada… manda à merda esse sofá de merda que te atiça com falsas verdades…
E descobre, então, nesse momento… a tua fé inabalável em ti. Que se não existe… lembra-te porque é que quiseste ir sentar-te sozinha num sofá… Com vozes teimosas na tua mente dizendo-te que não tens mais nada!
Que quase te faz desistir... Porque, pensas, que não tens mais nada a que te agarrar… – tudo é tão trabalhoso e tão difícil! Eu sei! Eu sei que o é… tão doloroso… Oh… se sei…
Quando achas que não tens mais nada… tens tanto! Ainda tens tanto para te descobrires… para te surpreenderes contigo próprio!
Amigo… eu sei o que é não ter mais nada. Eu sei o que é acordar fingindo vontade… Mas também sei… que o meu sofá… quando me diz isso… é para eu gostar de estar comigo.
Temos de aprender a estar sós e a gostar da nossa própria companhia…
Quando eu não tenho mais nada… tenho-me a mim – tenho tudo!
Quando tu não tens mais nada… tens-te a ti!
Aproveita… Disfruta dessa mais-valia de achar que não temos nada depois de termos feito tudo!
É o sinal de que te apercebes de que mais serás e ainda mais farás!
Quando tu não tens mais nada… o Mundo não para! E tu… paras porquê? Reconhece o teu ser em cada pequenina imagem… em cada paisagem… em todos os que te rodeiam… mesmo que em nada contribuam para reconheceres o que és.
Tu consegues encontrar a tua paz… mas muito mais que essa paz… que procuras… tu consegues encontrar a tua própria força.
E então, nesse sofá… que te diz que não tens mais nada… repara nas tuas mãos. Coloca-as sobre o rosto… seca as tuas lágrimas… e volta a reparar nas mãos… – o teu mar… voltou.
Esse mar que te desafia na sua força… afinal vive… desejando que tu te reconheças… como um guerreiro repleto de vida… e que não desiste nas pequenas batalhas…
Há tanta verdade no Mundo… tanta suposição em tudo aquilo que nos rodeia!
Que factualmente só te tens a ti. E que sabes ler o que sentes… dói… dói profundamente… Custa… custa tanto…
Mas… quando sentes que não tens mais nada… é quando percebes que basta uma simples memória… para te fazer lembrar… a razão que te levou a sentares-te nesse sofá… a parar o teu Mundo… e… a pensar… que sem ti próprio… não chegarias… jamais alcançarias esse dia…
Em que te sentas no teu sofá… pensando que nada tens… e… de memória em memória… sem distrações… percebes… que…
Está na hora de fazer por mim… tudo aquilo que fiz… por tantos!
Amigo… protege o que és… e quando pensares que não tens nada… que seja a tua memória a lembrar-te… do motivo pelo qual… um dia… fizeste sorrir alguém… e que esse alguém… te retribuiu com outro sorriso…
Tudo o resto… oh… como sabemos da podridão deste Mundo…
Que sejam felizes nessa imagem e nesse dom… da conquista…
Esses seres… apenas têm é um sofá melhor do que o teu…
Mas sabes uma coisa? Esse sofá… nunca lhes diz… «Quando tu não tens mais nada…». O que ele diz é… «Sou confortável… mas um dia vou ser trocado!».
Pois… o meu sofá e o teu… confrontam-nos com a nossa própria vida… e… quando pensares que não tens mais nada… levanta-te dessa coisa desconfortável e velha…
E… recomeça… luta… com a força de todos os recomeços… com a força de que sabes que já foste capaz e de que és capaz de voltar a fazer!
E chegará o dia em que… o teu sofá… te dirá…
«Quando não tens mais nada… tens-me a mim… que te aconchego… que te levanto... e que te dou força para a vida…».


lindo profundo
ResponderEliminarObrigada!
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