Acredito no amor...desculpem... mas, nas pessoas....não!

Tantas são as definições de amor que tenho lido... Claro que... desde Camões, António Feijó, Fernando Pessoa ou Florbela Espanca... todos me fizeram ver o amor de uma forma... correcta! Sendo que...o correcto para mim.. é o amor....não as pessoas...
Comecemos por Luís Vaz de Camões...Amor é fogo que arde sem se ver....
"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
Lembro-me de ter feito uma explicação deste poema na escola... O professor... ficou... indeciso... porque, palavras dele, "não aprendi assim... mas, dou muito valor ao que escreveste".... claro que não me deu boa nota... não expliquei o que ele queria que eu dissesse...Ele queria que eu dissesse que Camões tinha sido contraditório... Não achei que fosse... Ele descreveu exatamente o que é o Amor... é dar tudo de nós, é.. ficar feliz com a felicidade de quem amamos... cuidar de quem mesmo nos ignora... sobretudo... lealdade... sobre quem... nos magoa... por apenas sentir... amizade. Uma amizade que nos magoa... "arde sem se ver" ... não é amizade que ele pretendia deste amor... Amar... quem lhe deu... apenas uma grande amizade...
E... aqui vemos...
Eu própria sinto que a quem deveria ter dado o meu amor... ofereci apenas a minha amizade... Revelou-se... Por quem nos mata... lealdade... Sei que poderia ter sido feliz... de tão leais e verdadeiros que o foram comigo... Lamento. Eu, senti-me um dia, também como vocês... como Camões... O amor... é assim... já diz a música!
António Feijó! Alguns familiares meus descendem dele... um... diplomata... que dizia o que sentia camuflando o que realmente sentia... de uma forma que me parece... diplomática e... repleta de sentimento. Numa fonte em Ponte de Lima... leio sempre... paro sempre em frente a este poema..."Amor e o tempo"
"Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.
Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.
— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»
Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento,
Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!"
Que mais dizer? Desta forma tão diplomática... que o tempo apaga... ou faz esquecer todos os motivos porque quem se ama estão juntos... O tempo... revela prioridades... e, se essas não estão em sintonia com quem se ama... o caminhar pela montanha alcantilada... revela-se numa viagem sem destino algum. Cansamo-nos de sentir... o que não sentimos...
Fernando Pessoa... e, aqui fico... completamente indecisa sobre qual poema escolher... de qual heterónimo? Talvez... aquele... o mais ingénuo... o mais ligado à Natureza... o mais sensível... e, para mim, o mais verdadeiro. Alberto Caeiro in o "Pastor Amoroso"
"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio."
O Amor...não nos deixa estar sós! E... ele nos dá coragem para tudo! Reparamos mais em tudo... sorrimos... apreciamos, somos fortes... porque sentimos... Amor! Tão fácil viver assim... até a ausência físca nos torna... felizes.. amamos! Não sabemos como podemos dizer o que sentimos... queremos... apenas olhar... e ver...
Tudo o que nos rodeia... tem uma luz mais brilhante... porque... sabemos que está ali!!! Queremos dizer tudo... o que sentimos... mas, atrofiamos quem somos... não sabemos como reagir... tal é... a alegria de olhar quem amamos! Somos capazes de tudo... porque queremos acreditar... que um dia... derretemos nos braços de quem amamos... e, essa pessoa ficará feliz... com a força que nos provoca... sermos cada vez mais... humanos... justos... e, com amor.
O apreciar... tudo o que nos envolve... sentir a presença... O querer que alguém também ali estivesse a... sentir.. a abraçar o mesmo momento nosso... Tão bom... saber amar assim...
Por último... Florbela Espanca... a incompreendida... aquela que amou mais que tudo... a que mais precisou apenas de um abraço... de um sorriso... de... alguém que a conhecesse... e, nesse alguém pudesse ser... só e apenas... ela. ... Amar! de Florbela Espanca...
"Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."
Não importa quem nos ame.... queremos é amar! E amar... quem... nos encontre... assim... com vontade de captar a nossa essência... a nossa verdade... sem camuflagens.
Acredito no amor... desculpem... mas, nas pessoas não!
Lealdade... para com quem nos libertamos... e... somos... verdadeiros.
Tempo... que nos reaviva! Não o tempo que.... que nos expõe... perante quem nunca poderíamos ter sido... perante quem nos amou... ou... ama. O tempo trás verdades em nós.
Amar... saber estar só... porque ama. E... sentir-se feliz... por nunca estar só... O que sentimos... e somos... é companhia...
Perdermo-nos... dedicarmos a quem amamos... tudo o que somos e não somos capazes de fazer...
Por vezes, devemos perdermo-nos de quem somos... porque só assim.. conseguiremos ver... a certeza do que sentimos... do que estamos dispostos a fazer... por amor.
Bem.... o amor... é o amor... e... senti-lo... dá-nos toda a força e coragem para VIVER!
As... pessoas... com o mesmo tempo de António Feijó...revelam-se... e, eu...
continuo a acreditar... no amor. Nas... pessoas... não.
Um dia... voltaremos a falar de amor... e, das pessoas... porque não!


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